0# CAPA agosto 2015

SUPER
INTERESSANTE
Edio 350
Agosto2015

[descrio da imagem: cabea do Pinquio, de perfil, em madeira. Est de perfil. Em vrias partes da capa, partes do corpo de Pinquio, em madeira, prontos para serem montados. Alguns pregos e trs botes que sero fixados na blusa do Pinquio.]
A ERA DA MENTIRA
Estamos vivendo a poca mais mentirosa da histria. Entenda por que e aprenda a lidar com isso.
+ PESQUISA SUPER
Saiba qual a mentira que o brasileiro mais conta.

[outros ttulos]
QUEM SALVAR NOSSOS TEMAKIS?
Currais no oceano, cowboys mergulhadores e o peixe de 2 milhes de dlares. A incrvel histria do fim do atum.

HOLOCAUSTO NO ORIENTE: O LADO ESQUECIDO D 2A GUERRA

O DRONE DO ABORTO EM MISSO NA POLNIA

3.500 LNGUAS MORRENDO E UMA QUE RESSUSCITOU

NO  A GRCIA QUE TEM DE DEIXAR O EURO.  A ALEMANHA

BATATA FRITA SEM FRITURA? A SUPER TESTOU AS AIR FRYERS

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1# PRIMEIRA PGINA
2# ESSENCIAL
3# SUPERNOVAS
4# REPORTAGENS
5# ORCULO
6# MUNDO SUPER
7# REALIDADE ALTERNATIVA
8# LTIMA PGINA
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1# PRIMEIRA PGINA agosto 2015

DA MESA DO EDITOR

UM MONTE DE GENTE
     Sabe esta revista que est nas suas mos agora? Tem por a mais outras 300 mil dela, ocupando 300 mil pares de mos. Elas vo circular pelo Brasil e pelo mundo, e abastecer as mentes de pelo menos 1 milho de leitores. So 3,5 milhes de pessoas que frequentam o site da SUPER todo ms, e outros 3,5 milhes que nos seguem no Facebook. Centenas de milhares nos acompanham no Twitter, no Instagram, baixam a revista digital, assinam o Dossi SUPER, lem nossos livros, vem nossos filmes, jogam nossos jogos. 
     A SUPER no  uma revista - ela  uma comunidade formada por um monte de gente. A revista  s um dos lugares onde essa comunidade se encontra - provavelmente o mais importante desses pontos de encontro, mas ainda assim um entre tantos. 
     Este ms, por exemplo, a comunidade esteve reunida vrias vezes. Quando pedimos ajuda para fazer a reportagem de capa desta edio, sobre mentira, mais de 10 mil pessoas responderam  pesquisa que gerou os dados que ilustram a matria. Quando eu sa em busca de ideias para a revista, aqui mesmo na Primeira Pgina, duas edies atrs, quase 500 pessoas nos mandaram ideias de contos, infogrficos e HQs (peo desculpas pela minha demora em responder - t difcil dar conta do volume). Quando lanamos a edio passada, que trazia na capa a reportagem "Estupro - o mais acobertado dos crimes", 300 mulheres espontaneamente nos mandaram suas histrias traumticas - e muitas delas nunca tinham sido compartilhadas com ningum. 
     A capa sobre estupro, alis, foi um marco na trajetria desta comunidade. Um post que publicamos no Facebook no ms passado atingiu mais de 20 milhes de pessoas - um recorde para ns. Naquela semana, 10% da populao brasileira foi impactada pela matria. 
     A SUPER  uma comunidade imensa, e um caso raro no mundo. Em nenhum outro lugar uma publicao dedicada a disseminar conhecimento tem mais pblico que as revistas de fofocas. Para ns, isso  razo de orgulho, mas principalmente de gratido. Eu e o time que trabalha comigo temos conscincia do quanto somos sortudos - que privilgio  ter ao redor de ns uma comunidade to imensa e to interessante, de gente curiosa e instigada. Sabemos que no somos donos dessa comunidade - somos  servidores dela. Trabalhamos para esse monte de gente.  difcil imaginar um trabalho melhor.

Denis Russo Burgierman
DIRETOR DE REDAO
DENIS.BURGIERMAN@ABRIL.COM.BR
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2# ESSENCIAL agosto 2015

     2#1 UMA IMAGEM... ...MIL PALAVRAS
     2#2 NO  A GRCIA QUE TEM DE SAIR DO EURO.  A ALEMANHA

2#1 UMA IMAGEM... ...MIL PALAVRAS
NA PGINA ANTERIOR: Um dos tneis da transposio do Rio So Francisco, em Mauriti (CE). Ao fundo, um operrio tem sua imagem refletida no espelho d'gua. A obra toda, com seus 700 km de canais, est prevista para 2016. Mas agora, que vrias das empreiteiras envolvidas ali esto sendo investigadas por conta de outra transposio, a de dinheiro da Petrobras para seus cofres, os sertanejos talvez levem bem mais tempo at receber as guas do Velho Chico. A ver. 


2#2 NO  A GRCIA QUE TEM DE SAIR DO EURO.  A ALEMANHA
Enquanto a Europa cai pelas tabelas, a Alemanha se d bem. No  s competncia:  porque o euro trabalha a favor dela, e contra os pases pobres do continente.
POR ALEXANDRE VERSIGNASSI

     DINHEIRO S VALE DINHEIRO se tiver como lastro aquela coisa que vale mais do que dinheiro. Ouro no: PIB. Produo. Interna e bruta. Uma nota de R$ 50 s no  um mero pedao de papel porque carrega em si valor das coisas que o Brasil produz. O dlar s  o dlar porque tem por trs os US$ 18 trilhes em produtos e servios que brotam dos EUA. Quanto maior for a produo de um pas, ento, mais forte tende ser a moeda dele. 
     Mas tem outro lado nessa moeda. Quando o cmbio de um pas fica forte demais, a indstria dele comea a tossir. A gente conhece bem essa histria. O real hipervalorizado foi bom. Para a China: nossas construtoras e montadoras passaram a importar ao chins, porque a defasagem do yuan em relao ao real deixou o ao oriental mais barato que o da Gerdau. Em outra frente, nossas sacoleiras invadiram Miami e esvaziaram os outlets de l, aproveitando o dlar barato. De quebra, ajudaram a derrubar o faturamento da nossa indstria txtil. 
     Pois : uma moeda forte s vezes revela as fraquezas de um pas. Foi o que aconteceu aqui. E na Grcia tambm. 
     O lastro da moeda grega no  o PIB da Grcia.  o da zona do euro, que conta com 19 pases. Junte todos e voc tem um PIB de US$ 10 trilhes, igual ao da China (e cinco vezes maior que o nosso). 
     Mas esse pibo no tem nada de uniforme. A Alemanha responde sozinha por 40% do bolo. Se juntar ela e a Frana, d quase 70%.  uma desigualdade brava: o PIB da Grcia, estacionado em US$ 237 bilhes,  menor que o da regio metropolitana de So Paulo. Mesmo assim, ainda  um pouquinho mais gordo que o de Portugal e o da Irlanda, outros dois membros do infame PIIGS, o cordo de endividados da Europa (Portugal, Irlanda, Itlia, Grcia, Espanha). 
     Antes do euro, os cinco porquinhos tinham histrico de inflao alta, gastana estatal e, consequentemente, pouca moral no mercado financeiro. Ento eles tinham de pagar juros altos sempre que precisassem de moeda forte para importaes. Por "moedas fortes", entenda dlares e marcos alemes. 
     E a chegou o euro, na virada do sculo. Na prtica, era como se o marco alemo mudasse de nome para "euro" e passasse a suprir o resto do continente (a maior parte dele, pelo menos). Parecia bom para todas as partes. Os governos dos pases menos pibados passariam a receber os impostos dos seus cidados em euros, uma moeda garantida pelo PIB alemo. Impostos servem para pagar as dvidas dos governos - alm da lagosta dos governantes. E agora os contribuintes pagavam em euros. Resultado: o mercado passou a emprestar para os pases bagunados da Europa a juros baixssimos. 
     
     A CHOVEU EURO NA PERIFERIA da Europa. A economia ali cresceu como nunca, mas os governantes gastaram como sempre. Alm disso, no perceberam a arapuca em que tinham se metido: seus pases eram pequenos demais para suportar o peso de uma moeda forte. 
     Grcia, Portugal e cia. tm indstrias midas, incapazes de concorrer com a da Alemanha. Cheios de euros nos bolsos, os gregos e portugueses correram a comprar BMWs,  p. Isso e tudo o mais  que a Alemanha se desse ao trabalho de produzir, j que agora, sob a moeda nica, os itens germnicos tinham ficado com preo de outlet. Os alemes tambm passaram a consumir mais produtos dos perifricos. Mas se o seu pas faz azeite e o pas do outro, Audis, a balana comercial nunca vai pender para o seu lado. Foi o que aconteceu com Grcia e a rapa. 
     A indstria dos pases europobres tambm no aguentou a concorrncia com a dos euro-ricos, e teve o mesmo fado da nossa: encolheu, dispensou funcionrios. Os desempregados passaram a consumir menos... Recesso. 
     
     COM OS PIBS DOS EUROPOBRES caindo, a arrecadao deles diminuiu. Menos arrecadao, mais problemas para pagar dvidas. A tome mais dinheiro emprestado para ir rolando a pendura, s que agora a juros menos fofos. E no deu outra: dvidas equivalentes a mais de 100% do PIB viraram carne de vaca. A do Brasil, para voc ter uma ideia,  de 60%, e no chega a ser uma maravilha. E se mais de 100% j roa no limite do impagvel, imagina na Grcia, que passou a dever 175%. Era o caos. 
     A escalada da pendura a um grau insustentvel deixou os bancos europeus a perigo, j que eles so os credores dos europobres. Um eventual calote em massa causaria uma quebradeira igualmente massiva no sistema financeiro todo. Para evitar um colapso, ento, o Banco Central Europeu (BCE) "imprimiu" 1,1 triho de euros e emprestou para os bancos.  do jogo: no fosse isso, a crise europeia poderia ter feito com que a americana, de 2008, parecesse uma marolinha. 
     Mas os gastos do BCE tm ajudado mesmo os pases que menos precisam: em especial, a Alemanha. Explico. Se voc aumenta sua produo de dinheiro num ritmo maior que o da sua produo  de coisas de verdade, sua moeda enfraquece. Perde valor em relao ao dlar. Foi o que aconteceu com o euro depois que o BCE ligou suas impressoras a todo vapor. 
     Nisso, os produtos alemes ficaram mais baratos do que nunca fora da zona do euro. Tanto que, no ano passado, a Alemanha exportou US$ 246 bilhes a mais do que importou - um superavit comercial que s perde para o da China. A maior parte dessas exportaes foi para fora do continente, j que o resto da zona do euro continua definhando. E a culpa a no  s do endividamento dos europobres.  do prprio euro, porque a moeda nica cria uma situao surreal. O superavit alemo deveria fortalecer a moeda alem, caso o pas tivesse uma. Isso deixaria os produtos dos europobres mais baratos para os germnicos. A Alemanha passaria a importar mais de seus vizinhos. E isso traria um gs novo para as economias de todos eles. Mas no. A moeda nica impede esse reequilbrio natural, e coloca a Alemanha num reino da fantasia: o de ser uma economia forte com moeda fraca. Um pas livre para exportar  vontade - o oposto do Brasil, que agora  uma economia fraca com moeda proporcionalmente forte o bastante para atrapalhar o nosso comrcio exterior. A fica fcil para Angela Merkel. 
     
     A ALEMANHA NO est bem s por conta de sua to alardeada produtividade - nem pela suposta superioridade tica frequentemente atribuda aos germnicos, que valorizariam mais o trabalho que gregos, portugueses, espanhis. No. A Alemanha virou uma ilha de prosperidade naquele mar de lama porque vive num sistema que a favorece, na alegria ou na tristeza, na sade ou na doena. Diante disso, a nica sada talvez seja mesmo o fim desse casamento monetrio, com a Alemanha saindo do euro. E voltando para a realidade. 
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3# SUPERNOVAS agosto 2015

     3#1 FATOS
     3#2 COISAS
     3#3 COISAS  TESTE  FRITADEIRA SEM LEO
     3#4 HACK - COMO FAZER PIPOCA COMUM NO MICRO-ONDAS

3#1 FATOS
Edio Karin Hueck

ADOANTE CONTAMINA RIOS E LAGOS
NOSSO CORPO NO METABOLIZA ADOANTES - assim, no engordamos com eles e eliminamos tudo pela urina. Acontece que as estaes de tratamento de gua tambm no conseguem quebrar a molcula, o que faz com que a substncia chegue intacta a lagos e rios. Foi o que descobriram cientistas que analisaram a gua em 23 pontos do rio Grant, no Canad. Eles encontraram sacarina, ciclamato e sucralose em concentraes de at 21 microgramas por litro.  pouco ainda, mas o rio abastece diversas cidades da regio - agora com gua realmente doce.

VIGIE A NATUREZA SELVAGEM 
Poucas coisas so to relaxantes quanto assistir a um urso pardo caando salmes em um rio no Alasca. Duvida? Entre aqui: bit.ly/1l4L7WY e acompanhe um streaming ao vivo do Parque Katmai, que tem trs webcams espalhadas em reas estratgicas acompanhando a vida dos ursos.
E veja mais:
- Lees marinhos nas ilhas Round: bit.ly/1Fr9M2H 
- Arraias gigantes nas Ilhas Cayman: bit.ly/1KaWbk0

O BURACO DE RUA QUE TUITA
Depois de passar por uma rua esburacada, a reao mais bvia do motorista  xingar em voz alta (e lamentar pelo abalo ao carro). Agora, com uma campanha publicitria na Cidade do Panam, quem reclama de verdade  o buraco de rua. Funciona assim: sensores de movimento instalados nas crateras percebem quando uma roda passa por cima dali. Depois, o aparelho gera queixas em forma de tutes, endereadas ao governo panamenho. A ideia  pressionar a prefeitura e o Estado a melhorar as condies de suas ruas e avenidas. "Hoje vrios carros e nibus passaram por cima de mim, aqui no centro da cidade. Eu preciso de ajuda j!", "Parece que um Tiranossauro Rex ou o Godzilla passaram pela Vila Mercedes", j reclamou automaticamente @Elhuecotwitero. Por Priscila Bellini 

"Se toda vez que usarmos a expresso 'portanto', pagarmos 10 euros para a Grcia, a crise estar resolvida em um dia." 
O cineasta Jean-Luc Godard j tinha em 2011 a soluo para o crise grega, ao lembrar que devemos ao pas  e aos filsofos gregos  toda a lgico ocidental.

DESPEDIDA
De uma pessoa e de uma espcie
Chenjerai Hove  Escritor - Opositor ferrenho do ditador Robert Mugabe, Chenjerai era um dos mais importantes escritores do Zimbbue. Ele lutava por direitos humanos em seu pas quando comeou a ser perseguido e se exilou na Europa. Premiado ao redor do mundo, Chenjerai morreu na Noruega aos 59 anos. 
Suuarana americana do Leste - Puma concolor couguar - O grande felino, um dos mais comuns no Ocidente, habitava originalmente os EUA e o Canad e estava h 43 anos na lista de espcies ameaadas. O ltimo exemplar na natureza - um macho morto - foi encontrado em 1938 e agora os EUA desistiram de procurar por mais e declararam oficialmente a extino. 

O ATAQUE FINAL S SUPERBACTRIAS
Quando um paciente chega ao mdico com uma infeco, costuma sair de l com uma receita para um antibitico que mata diversos tipos de germes - e essa falta de preciso acaba gerando superbactrias, uma das maiores ameaas  sade. Agora, um prmio ingls vai dar R$ 50 milhes para quem desenvolver mtodos mais eficazes de identificar bactrias especficas. Aqui, alguns prottipos. PB 
1- Scanner de gente - O aparelho  encostado na pele e usa raios infravermelhos para checar o paciente. Se h algum marcador inflamatrio no sangue (molculas lanadas pelas clulas de defesa), ele denuncia na hora. Depois  s mandar os dados para o computador. 
2- Tiras multiuso - O exame combina tirinhas para analisar, de uma tacada s, urina, sangue e saliva  basicamente, um checkup de bolso. Cada um dos lquidos entra em contato com uma substncia que reage  presena de bactrias, como se fossem anticorpos. E o resultado lembra os testes de gravidez da farmcia: se for positivo, aparecem os tracinhos.  
3- Pirulito do estreptococo - Esse teste parece um pirulito e, em contato com a saliva, muda de cor caso encontre micrbios indesejados por ali. Como o estreptococo  a principal bactria por trs da dor de garganta das crianas, mas muitas vezes demora para ser identificada, o recurso pouparia vrias idas ao consultrio. 
4- Nanorrobs - Esses recursos minsculos, que circulariam pelo sangue livremente, monitorariam a presena de bactrias. O robozinho ficaria de olho no apenas nos micrbios, mas tambm em outros dados, como nveis de glicose, e ficariam sempre dentro do corpo. 
US$100 trilhes  O PREJUZO QUE A RESISTNCIA BACTERIANA VAI CAUSAR ANUALMENTE A PARTIR DE 2050.
10 milhes  O NMERO DE PESSOAS QUE VO MORRER DE SUPERBACTRIAS NA MESMA POCA.
Como participar. O Longitude Prize est com inscries aberts at 30 de setembro em longitudeprize.org

PARA SALVAR OS 7 MARES
A nova urgncia entre cientistas  estabelecer reservas naturais martimas. Apenas 3,4% dos oceanos esto em reas de proteo, contra 14% das terras (e olha que 71% do planeta  coberto por mares). O problema  vigiar esse mundaru de gua - alm de estabelecer reservas itinerrias, j que as espcies martimas no permanecem em um s lugar por muito tempo. Conhea alguns dos parques mais importantes criados recentemente. ALF
1- PARQUE NATURAL DO MAR DE CORAIS [OCEANO PACFICO, 2014] Tem o tamanho de trs Alemanhas e preserva corais.
2- ILHAS PITCAIRN [POLINSIA, EM CRIAO] Ser a maior reserva martima do mundo e vai preservar peixes, algas e corais.
3- MONUMENTO NACIONAL DAS ILHAS REMOTAS DO PACFICO [HAVA, 2009] So trs Califrnias para preservar tartarugas, baleias e focas.
4- SANTURIO MARINHO NACIONAL [PALAU, 2014] So 500.000 km2 e conta com o primeiro "santurio de tubares" do mundo.

O FRACASSO  E A REDENO  DOS CURSOS ONLINE 
Quando os MOOCs (massive open online courses, ou cursos online gratuitos macios) surgiram, a esperana geral era de que dariam acesso irrestrito  educao  incluindo para comunidades remotas nas regies mais pobres do mundo. Mas logo se observou que os usurios s costumam completar 4% do curso em que se matriculam. Uma nova pesquisa, no entanto, mostra o perfil das pouqussimas pessoas que assistem s aulas at o final: so professores. De acordo com a pesquisa, a maior parte de quem se forma nos MOOCs tem um diploma universitrio e d aulas. Assim, funciona como aperfeioamento profissional. PB 

Voc paga este poltico [*Projetos de lei que foram apresentados no plenrio no ltimo ms.]:
Por Rodolfo Viana
 Cabuu Borges (dep. fed. PMDB-AP) quer criar, das 19 s 21 horas, todos os dias, uma Voz do Brasil na TV. Seriam programas curtos, de 5 minutos, no meio da programao. 
 Silvio Costa (dep. fed. PSC-PE) defende que todo site ou blog exija nome e CPF de quem comenta nas postagens. 
 Gilberto Nascimento (dep. fed. PSC-SP) quer que doadores de sangue tipo O sejam privilegiados e tenham dois dias de folga do trabalho. Os demais tipos s teriam um. 

O Brasil descobriu este ms que Xuxa envelheceu.
ENQUANTO ISSO..
Por Ana Luisa Fernandes
Um time de cientistas internacionais encontrou cinco novos buracos negros supermacios, antes escondidos por gs e poeira. 
A United Airlines vai usar combustvel feito de gordura e fezes de animais em seus avies. A ideia  reduzir em at 80% a emisso de gases. 
Americanos descobriram que envelhecemos em ritmos diferentes. Foram estudadas mil pessoas por 12 anos. No fim, quando todos estavam com 38 anos, a idade biolgica variava de 28 at 61. 
Cientistas descobriram uma nova propriedade da luz. Quando a luz passa por um objeto, ela adquire rotao, ao contrrio da trajetria no ar.

NO REINO ANIMAL, TODO MUNDO  GALINHA
Voc aprendeu na aula de biologia que, no mundo animal, os machos so os nicos interessados em sexo e disputam entre si as fmeas, que ficam l paradinhas. Mas, segundo o bilogo Geoff Parker, professor da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, as fmeas bem que do suas ciscadas por a. PB

Voc j defendeu que as explicaes sobre a seleo sexual tiveram um vis masculino. O que isso significa? 
Darwin definiu duas formas de seleo sexual: o combate entre machos, em que dois brigam para acasalar, e a escolha pela fmea, em que ela opta por um deles. Olhando assim, at parece balanceado, como se os dois sexos fossem levados em conta. S que Darwin considerava uma tendncia das fmeas  monogamia, enquanto o lado masculino tendia  poligamia. Obviamente, o nmero de acasalamentos para todos os membros deveria, em mdia, ser igual (o que, infelizmente, foi omitido em muitos estudos). 

E a poliandria no reino animal,  comum? 
A poliandria no era estudada h 30 anos porque os cientistas no se interessavam ainda pelo que chamamos de seleo sexual ps-copulatria (que acontece depois do acasalamento). Nessa categoria, entram a  competio espermtica (em que, quando a fmea copula com vrios machos, os espermatozoides competem dentro do trato reprodutivo dela para fecundar vulos) e a escolha crptica do sexo feminino (em que a fmea tem mecanismos autnomos em seu organismo para selecionar o espermatozoide com genes mais atrativos). Eu suspeito ainda que, quando Darwin comeou seus estudos, a ideia de poliandria foi deixada de lado, porque ia contra os valores da sociedade vitoriana. Mas, agora que temos como verificar o DNA, sabemos, por exemplo, que muitos dos pssaros fmeas que chamvamos de "socialmente monogmicos" no so nada disso, e tm mais de um parceiro. 

E por que os cientistas ignoraram o lado feminino por tanto tempo? 
Muitos dos aspectos masculinos na seleo sexual [como adornos e combates] eram mais aparentes e mais fceis de estudar que os femininos. 


PROCURE UM AMOR EXTICO E SENSUAL 
Se voc quer ter filhos bem-sucedidos, provavelmente no deveria estar procurando no Tinder ou no Happn. Uma pesquisa da Universidade de Edimburgo, na Esccia, revelou que pessoas de ascendncia mista possuem uma vantagem gentica sobre as outras: se do melhor na vida, tm melhores habilidades cognitivas e so mais altos que o resto. A pesquisa foi realizada com dados de 110 estudos, que incluram 350 mil pessoas. "Os resultados colocam o Brasil em uma tima perspectiva, graas  diversidade de sua populao", explica Ozren Polasek, um dos autores. Ento j sabe: da prxima vez que voc for procurar um pai ou me para as suas futuras crianas, v mais longe. 
Por Ana Luisa Fernandes 

QUEM TEM NARIZ VAI A ROMA (OU LONDRES OU BH)
Um mapa que leva voc ao seu destino pelo caminho mais cheiroso: essa  a proposta de um time liderado por Daniele Quercia, da Universidade de Cambridge. Eles criaram mapas, batizados de "smellfies", de cidades como Londres e Barcelona, identificando aromas que cada rua e regio possui. Para fazer isso, a equipe criou um "dicionrio de aromas". Definiu dez categorias, que incluem, entre outros, natureza, indstria e comida. Depois, foram utilizados dados de redes sociais,  como hashtags do Twitter e comentrios no Instagram, para criar um algoritmo que detecte aglomerados de palavras relacionadas aos cheiros. "Se voc pode mapear um cheiro, pode tambm alterar o cenrio dos aromas urbanos", diz Quercia. O catlogo de cheiros - bons e ruins - pode incentivar pessoas a participar mais da vida da cidade em que vivem e restringir a poluio do ar. E o Brasil est na lista: "Em agosto estarei em Minas Gerais, e talvez comece alguns projetos". ALF 


NDICE BANDA LARGA
Por 10 megabits/segundo
Brasil R$ 104
EUA R$ 110
Venezuela R$967
China R$ 46
Rssia R$ 19
frica do Sul R$ 582
Frana R$ 195


3#2 COISAS
EDIO BRUNO GARATTONI

UM PASSO ALM DO APPLE WATCH
Os desktops e os notebooks vo acabar. Os celulares tambm. S vai sobrar um computador: no seu pulso. Essa  a ousada proposta do super-relgio Neptune.
O RELGIO NEPTUNE (getneptune.com) tem as mesmas funes do Apple Watch: d para ler notcias, mandar mensagens, etc. Mas, quando voc chega ao escritrio, ele se conecta automaticamente  sua estao de trabalho - que  "burra", ou seja, s um monitor com teclado e mouse.  O celular e o tablet tambm so apenas telas, sem CPU prpria. A inteligncia est concentrada no Neptune, que tem processador quad-core de 1,8 GHz (comparvel ao de um notebook bsico). As vantagens so a simplicidade e o preo: US$ 650 por um kit com relgio e os acessrios (teclados, telas etc.), um tero do que voc gastaria comprando tudo o que ele substitui. Resta ver como o produto funcionar na prtica (o lanamento est prometido para fevereiro). Mas a ideia faz sentido. Parece to natural quanto a migrao dos mainframes para os PCs, nos anos 1980. 

NOVE DOLETAS
 o preo do computador CHIP (nextthing.co). Sim, US$ 9. E ele  bem completo: tem Wi-Fi, Bluetooth, 4 GB de memria e sistema Linux - j com navegador e o pacote LibreOffice. Tudo nessa plaquinha que voc est vendo ao lado.  s conectar teclado, mouse e um monitor e comear a usar. As nicas coisas no inclusas no preo so a fonte de alimentao (serve qualquer fonte USB, como a do seu celular) e o adaptador para ligar um monitor, que custa mais US$ 9.

HIPSTER NA VERTICAL
Toca-discos de vinil voltou  moda faz tempo, bastante gente tem. Mas no como este.
TOCADO NUM BOM mento, disco de vinil tem uma qualidade de som incrvel. Mas a verdade  que muita gente gosta de LPs mais por sua aparncia: so objetos inerentemente bonitos, charmosos, ficam bem em casa. O toca-discos Floating Record (US$ 330)  uma pea de decorao interessante, com tecnologia idem - porque, graas a um sistema de estabilizao do brao, consegue tocar os discos na vertical. 

UMA REFLEX NO IPHONE 
O IPHONE tira timas fotos. Mas o acessrio DxO ONE (US$ 600) vai muito alm: transforma o celular da Apple numa cmera de alta qualidade, comparvel  das mquinas profissionais mais simples.  que ele tem uma lente muito boa, que capta bastante luz - a abertura chega a f/1.8 - e sensor de imagem muito grande, com 1 polegada (o triplo do normal). Basta conectar o aparelho, uma caixinha que pesa apenas 108 gramas, ao iPhone para sair tirando fotos de 20 megapixels. Tambm d para controlar manualmente o obturador e o diafragma, se voc quiser. 

PROJETOR A LASER
O Epson LS10000 (US$ 10 mil) usa laser para gerar a imagem - e, graas a isso, ela tem muito contraste (ponto fraco dos projetores convencionais). O laser no  perigoso, pois no  projetado diretamente na tela. Bate numa placa revestida por fsforo, dentro do projetor, e ela produz a luz que voc ir ver. O laser tem vida til de 30 anos (supondo 3 horas de uso dirio do projetor). Apesar do laser, no gasta muita energia: 267 W

PROLAS DO STREAMING
Tesouros escondidos nos principais sites.
NETFLIX  360 - Filme - O que acontece na vida de uma pessoa interfere, sem que ela saiba, nas vidas das outras. Essa  a ideia do filme, que conta as histrias e as traies de vrios casais e mistura atores brasileiros com figures gringos (Anthony Hopkins, Rachel Weisz, Jude Law), dirigidos por Fernando Meirelles.
GLOBOSAT PLAY (PLAY.COM.BR) - Morar - Srie - O castelo medieval em Cariri, no Cear. O chal de 9 m de altura, no Par. A casa mais colorida do Brasil, no rio So Francisco, e o endereo mais escondido, e mais incrvel, de Florianpolis. Com duas temporadas, esta srie mostra como moram, e como vivem, as pessoas pelo Pas. 
YOUTUBE - How it's made - Canal - Voc sabia que a lousa de escola  feita no forno? Que salmo defumado leva acar, e que  preciso uma orquestra de robs para fazer uma reles vassoura? Os bastidores e as surpresas industriais por trs de cada coisa que voc consome - em cinco minutos. 
YOUTUBE - Em busca da verdade - Documentrio - A ditadura acabou, mas manteve seus segredos at 2012, quando a Comisso Nacional da Verdade foi criada. Produzido pela TV Senado, este doc traz as principais concluses dela - e novidades impressionantes, como o envolvimento de empresas no golpe. 

NADA  O QUE PARECE SER
Superfcil de jogar, mas dificlimo de dominar. Assim  Monument Valley, eleito game do ano pela Apple. Conhea a continuao dele - que acaba de ser lanada. 
EST VENDO A MENININHA de branco, acima? O objetivo  faz-la atravessar a tela e chegar ao outro lado. Super simples. Mas, para conseguir, voc tem que girar o cenrio: pois isso produz distores geomtricas que criam caminhos para ela passar. Monument Valley comea fcil, mas vai ficando cada vez mais complicado - e cada vez mais bonito. O game  inspirado no artista holands M.C. Escher e seus desenhos da chamada "arquitetura impossvel". Agora, est ganhando uma expanso, Ida's Dream, com cinco novas fases. Se voc j tem o jogo,  s baixar a atualizao dele pela App Store, de graa. Se no tem,  um bom momento para experimentar o game, que foi eleito pela Apple o jogo do ano em 2014 e j vendeu mais de 4 milhes de cpias.

QUANDO VEMOS DESGRAA, SENTIMOS ENJOO. DEPOIS A GENTE SE ACOSTUMA", 
disse VICTOR CAPESIUS, um pacato vendedor de remdios que virou monstro: diretor do campo de concentrao de Auschwitz. Capesius. O Farmacutico de Auschwitz (livro). R$ 45

15 TONELADAS 
DE COCANA, valendo US$ 500 milhes, foi o que Pablo Escobar chegou a exportar - num nico dia. H mil obras sobre ele. Mas esta srie promete ser a mais legal: tem Wagner Moura e Jos Padilha, mesma dupla de Tropa de Elite.
Narcos - Estreia dia 28/8 no Netflix.

LUKE, VOC  MEU FILHO. VAI ESCOVAR OS DENTES!
NO MOMENTO MAIS FORTE da saga Star Wars, Darth Vader revela que  pai de Luke Skywalker (e, portanto, tambm da Princesa Leia). Estes dois livrinhos imaginam, em charges muito engraadas, a infncia e a adolescncia deles com o papai Darth. Luke faz baguna na Estrela da Morte e usa a fora para roubar comida, enquanto Leia brinca com seu Ewok de pelcia e vai  escola de Imperial Walker (morre de vergonha de ser levada pelo pai). Boa pedida para os fs de Star Wars - e timo presente de Dia dos Pais. 
Darth Vader e Filho e A Princesinha de Vader R$ 29,90 cada

O NOVO DO WOODY ALLEN 
UM PROFESSOR de meia-idade, cansado e desiludido, se apaixona por uma aluna ingnua e cheia de esperana. Ou seja, o clich dos clichs. At que um crime entra na histria e embaralha tudo. Baita clich tambm. Mas, alm de ser escrito e dirigido por Allen, o filme tem Joaquin Phoenix (em grande fase) e Emma Stone. Vale a tentativa. 
Irrational Man - Estreia nos cinemas dia 27/8. 

AINDA MAIS IMPOSSVEL
A srie de filmes  conhecida pelas peripcias totalmente inverossmeis - e divertidas. Mas Misso Impossvel 5 (Nao Secreta), que estreia em 13/8, promete bater o recorde.
1996 M:I
OEJETIVO Provar a prpria inocncia. 
CENA + ABSURDA Tom Cruise se pendura num helicptero enquanto ele voa preso a um trem de alta velocidade - tudo em pleno Eurotnel. 

2000 M:I II 
OBJETIVO Impedir uma epidemia. 
CENA + ABSURDA Duas motos batem e explodem no ar. Mocinho e vilo caem de 4 metros de altura, mas continuam a lutar. 

2006 H:I III 
OBJETIVO Evitar um atentado. 
CENA + ABSURDA O heri pula de um arranha-cu em Xangai amarrado a uma corda e alcana o teto de outro edifcio. Arr.  

2011 M:I IV 
OBJETIVO Impedir uma guerra nuclear. 
CENA + ABSURDA Tom escala o Burj Khalifa, prdio mais alto do mundo. E isso usando apenas uma luva de suco, que gruda na superfcie do prdio. 

2015 M:I V 
OBJETIVO Destruir um grupo do mal. 
CENA + ABSURDA O protagonista escala a parede externa de um avio cargueiro militar - enquanto ele decola e sobe a 1.500 m. Sussa. 


VOC DECIDE
Os projetos mais interessantes (e surpreendentes) do mundo do crowdfunding

USB SEM ENROSCO
Indiegogo 
Projeto MicFlip 
O que  - Um plugue USB que no tem lado (como os tradicionais). Ou seja: voc pode conectar os seus gadgets em qualquer sentido, que encaixa. O adaptador  compatvel com PC e Mac. 
Meta USS 6 mil 
Chance de conseguir *****

X, PROCRASTINAO
 Indiegogo 
Projeto Saent 
O que  - Um aparelho com um boto que, quando apertado, bloqueia o acesso a sites e apps "no produtivos" (como Facebook e joguinhos) no seu computador, tablet e smartphone. As distraes ficam bloqueadas por 30 a 90 minutos. Depois, ele gera um grfico mostrando o quanto voc trabalhou e produziu. 
Meta US$ 100 mil 
Chance de conseguir ***

FOTONAVEGADOR 
Kickstarter 
Projeto NaviCard 
O que  - Um app que transforma fotos em coordenadas de GPS. Viu uma foto incrvel e quer saber onde fica?  s rodar o aplicativo. Ele descobre onde  e at traa a rota no Google Maps. O programa usa as coordenadas de localizao que os smartphones (e muitas cmeras) incluem automaticamente nas fotos.
 Meta US$ 1 milho 
Chance de conseguir **


3#3 COISAS  TESTE  FRITADEIRA SEM LEO
Estas mquinas usam ar, aquecido a 200 graus, para fritar os alimentos. Isso deixa a comida mais saudvel, com, menos gordura - e at 70% menos calorias. Mas funciona mesmo? Fica bom? E qual delas  a melhor? Vamos ver.

COMO TESTAMOS - Preparamos batatas fritas, nuggets, pes de queijo e coxinhas em cada mquina, usando as mesmas marcas e tipos (veja lista abaixo). O desfecho foi sempre o mesmo: batatas e nuggets ficaram excelentes, pes de queijo ficaram bons, e as coxinhas ficaram ruins (a massa sempre estoura). Ou seja:  possvel obter o mesmo resultado com qualquer uma das mquinas. O que difere  o processo para chegar a ele.

PHILIPS WALITA
AIRFRYER RI9225
 a mais rpida, porque a cesta onde voc pe a comida  feita de uma malha de metal vazado, o que ajuda na circulao do ar (nas outras fritadeiras, ela  uma panelinha comum, de teflon). A mquina  bonita, silenciosa, e sua parte externa no fica quente durante o uso. Um timo produto. Mas o fabricante poderia rever o preo - porque a AirFryer hoje tem concorrentes, e eles so bem mais baratos.
Rudo: 66 dB
Potncia: 1425 watts
Tempo para fazer batata: 19 min
R$ 1.199 philips.com.br

ARNO ACTIFRY
Mexe automaticamente a comida (nas outras mquinas, voc tem de tirar e sacudir a cesta uma vez durante o cozimento), e  a mais fcil de limpar. Tem tampa transparente, que fica bem quente durante o uso - mas permite ver o alimento sendo preparado, o que  bom.  a mais ruidosa, lembra um secador de cabelo. A melhor opo para famlias grandes, porque frita at 1 kg de batata por vez, contra 700 g da Philips (e 500 g das outras).
Rudo: 72 dB
Potncia: 1570 watts
Tempo para fazer batata: 25 a 27 min
R$ 859.99 arno.com.br

MONDIAL AF-01
Lembra a Philips, tanto no formato quanto no funcionamento (os botes tm as mesmas funes, e a mquina  to silenciosa quanto). Mas tem menos potncia, e por isso  um pouco mais lenta - mas isso no chega a ser um problema. Bom acabamento, com painel em inox. E a parte externa da mquina no esquenta muito durante o uso. Bom produto, com excelente relao custo-benefcio.
Rudo: 66 dB
Potncia: 1270 watts
Tempo para fazer batata: 17 a 25 min
R$ 09,90 mondialine.com.br

CADENCE FRT500
A cesta de alimentos tem poucos furos. Por um lado, isso ajuda na hora de limp-la. Por outro, dificulta um pouco a passagem do calor - o que explica o maior tempo de preparo em relao  Mondial. O boto que destaca a cesta (para voc lav-la na pia) tem um protetor. Isso impede que ele seja acionado sem querer, evitando acidentes durante o uso.  silenciosa e funciona bem, sem problemas.
Rudo: 68 dB
Potncia: 1250 watts
Tempo para fazer batata: 25 a 30 min
R$ 599 cadence.com.br


3#4 HACK - COMO FAZER PIPOCA COMUM NO MICRO-ONDAS
D para fazer pipoca no micro-ondas usando milho comum.  mais saudvel, porque no leva gordura - e sai 70% mais barato. 
1- PEGUE UM SACO de papel, como o da padaria, e coloque 1 xcara de milho comum dentro. Enrole a ponta do saco para fech-lo. 
2. COZINHE NA potncia mxima por 1min50. O tempo exato varia conforme o micro-ondas (quando o intervalo entre os estouros do milho ficar maior que 2s,  hora de parar). 
3. PRONTO. Fica uma delcia. Como a pipoca no tem gordura, o sal comum no adere. Utilize sal lquido, que pode ser borrifado. 
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4# REPORTAGENS agosto 2015

     4#1 CAPA - MENTIRA  POR QUE NUNCA CONTAMOS TANTA
     4#2 HISTRIA  O LADO B DA SEGUNDA GUERRA
     4#3 PERFIL  O DRONE DO ABORTO
4#4 GASTRONOMIA  A VIDA DE GADO DO ATUM
4#5 NU & CRU
4#6 CULTURA  LNGUAS EM EXTINO
4#7 APRESENTADO POR HBO  HIPNOSE AO ALCANCE DE TODOS

4#1 CAPA - MENTIRA  POR QUE NUNCA CONTAMOS TANTA
A mentira faz parte da vida. Mas, de uns tempos para c, ela explodiu: os dados mostram que as pessoas esto mentindo cada vez mais. Saiba por que isso est acontecendo, quais so as consequncias - e o que fazer para se defender dessa onda.
Reportagem Eduardo Szklorz
Edio Bruno Garattoni

     A MENTIRA NASCEU junto com a sociedade. O ser humano comeou a mentir assim que se juntou em grupos, e nunca mais parou. Uma experincia da Universidade de Massachusetts mostrou que, quando duas pessoas se conhecem, cada uma conta em mdia trs mentiras - nos primeiros dez minutos de conversa. E pessoas que compartilham a vida toda (cnjuges, parentes, amigos) tambm mentem entre si, s vezes de forma terrvel. Todo mundo mente. Tem gente que mente para levar vantagem, conseguir o que quer. Alguns mentem para no contrariar ou magoar outras pessoas. Tem quem minta para parecer mais legal e ser aceito socialmente. Existem infinitas maneiras de mentir, e elas nos acompanham o tempo todo. 
     Sempre foi assim. A novidade  que est piorando, e muito. Nunca se mentiu tanto (um estudo assustador, que vamos explorar daqui a pouco, indica que as pessoas passaram a mentir de trs a cinco vezes mais na ltima dcada). A mentira nunca foi to corriqueira e tolerada, e por isso ganhou um poder avassalador - hoje tem papel determinante na economia, na poltica, na imprensa, na medicina, na propaganda, no consumo, nas relaes humanas. Se voc acha que o mundo est mentindo para voc, est certo. O que voc nem imagina  quanto. 

O ROB QUE APRENDEU A MENTIR 
     Ns no somos os nicos a tentar enganar os outros. O besouro se finge de morto para despistar os predadores, os macacos enganam uns aos outros para conseguir mais comida. At os robs mentem - como mostrou, em 2009, um estudo da Universidade de Lausanne (Sua). Os cientistas criaram mil robozinhos, programados para procurar "comida" (representada por um sinal eletromagntico) num labirinto. A comida era insuficiente para todos os robs. Mas, quando um encontrava alimento, deveria automaticamente avisar os outros, acendendo uma luz. A cada rodada, os robozinhos eram reprogramados - e o software dos vencedores, que tinham achado a comida mais rpido, era instalado em alguns dos outros.  como se os lderes estivessem tendo filhos, e espalhando seus genes. Seleo natural - s que artificial. 
     Depois de nove geraes, a maioria dos robozinhos estava craque em encontrar comida. Mas a alguns deles descobriram, sozinhos, que no precisavam avisar os outros. Podiam guardar tudo para si. Esse comportamento foi se espalhando - e, depois de 500 geraes, 60% dos indivduos tinham aprendido a mentir. "Os robs estavam competindo por comida, e por isso evoluram para esconder a informao [dos outros]", concluram os autores do estudo. Aprender a mentir parece ser uma consequncia natural, e inevitvel, da luta pela sobrevivncia. 
     E ela comea cedo. "Aos 2 ou 3 anos, as crianas j fazem afirmaes falsas de forma deliberada. S que ainda so mentiras inocentes, sem o objetivo de incutir uma falsa crena no ouvinte. Por isso, so chamadas de mentiras primrias", explica o psiclogo Kang Lee, da Universidade de Toronto. "Aos 4 anos, a criana j sabe se o ouvinte tem conhecimento da situao, e portanto se ele est suscetvel a falsas crenas.  a mentira secundria." Aos 7 ou 8 anos, o engano atinge a terceira fase: a criana  capaz de esconder seu embuste de forma sofisticada, tentando manter coerncia entre a mentira inicial e as declaraes seguintes. 
     Isso foi descoberto por meio de uma experincia simples. O cientista senta com a criana, numa sala, e diz que h um brinquedo atrs dela - mas pede que ela no olhe para o brinquedo. Em seguida, o adulto sai da sala, monitora a reao da criana por uma cmera e depois lhe pergunta se ela espiou o objeto. Kang estudou 65 crianas de 2 a 4 anos. No grupo das menores, de 2 anos, 95% olharam para o brinquedo - mas apenas 33% mentiram a respeito. J entre as crianas de 4 anos, 62% olharam - e nada menos do que 90% mentiram. Nessa idade, a mentira j  moeda corrente. E da em diante a garotada mente com traquejo, como Kang constatou em outro estudo, dessa vez com 150 crianas de 3 a 8 anos. Ele escondeu um boneco do dinossauro Barney, colocou uma msica qualquer para tocar e saiu da sala. Depois de um tempo, voltou e perguntou  criana: "Qual brinquedo voc acha que ?". A maioria das que olharam disse que era o Barney. "E como voc sabe?", ele perguntou. Entre as mais novas, a maioria se autoincriminou, com frases do tipo "no sei" ou "vi a cor roxa". J entre as mais velhas, quase 80% tentaram sustentar a lorota inicial contando outra: "A msica que estava tocando era do Barney", por exemplo. Mentira. 
     Mas, calma, no h nada de errado nisso. Uma criana mentir no significa que ela v se tornar um adulto mitmano. Mentir  um passo importante do amadurecimento. Mostra que a criana j consegue distinguir as prprias crenas das crenas alheias, e sabe avaliar as intenes e os desejos de cada um. Os cientistas chamam essa habilidade de "teoria da mente". A incapacidade de mentir pode at ser sinal de transtornos cognitivos, como o autismo. Em suma: a evoluo nos deu as ferramentas para mentir, mas  no convvio social que aprendemos a manej-las. O problema  quando mentir sai do controle, e vira a regra. 
     A cada dois anos, o Instituto Josephson, um grupo de pesquisas americano, faz um levantamento com estudantes de 13 a 19 anos, que respondem a questionrios annimos. Na ltima edio da pesquisa, que envolveu 23 mil estudantes, 52% admitiram que colaram em provas, 74% copiaram tarefas de colegas, e 32% plagiaram textos da internet. Trapaas assim costumam envolver um clculo de custo-benefcio: o aluno decide colar porque conclui que o risco (ser pego)  menor que a recompensa (tirar nota boa). A mesma lgica vale para quem estaciona em local proibido ou surrupia algum objeto no trabalho. "Nosso comportamento  dirigido por duas motivaes opostas: queremos nos ver como pessoas honestas e honradas, mas tambm queremos levar vantagem e ganhar o quanto for possvel", escreve o psiclogo Dan Ariely, professor da Duke University, em seu livro sobre mentira (A Mais Pura Verdade sobre a Desonestidade, editora Elsevier). " a nossa incrvel flexibilidade cognitiva: ao enganar apenas um pouco, podemos nos beneficiar da trapaa, e ainda nos vermos como seres humanos maravilhosos." Todo mundo  capaz de cometer transgresses - at um limite. 
     Ariely constatou isso num teste com alunos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Eles tinham 5 minutos para resolver 20 problemas simples de matemtica. Para cada resposta correta, ganhariam US$ 0,50. Os alunos foram divididos em dois grupos. No grupo A, o examinador contava as respostas corretas e pagava o valor correspondente. No grupo B, os prprios alunos diziam quantos problemas haviam resolvido. Ou seja: tinham a oportunidade de mentir. Como voc pode imaginar, os alunos do grupo B se saram "melhor" que  os do grupo A. Inflando seus resultados, eles ganharam mais dinheiro. Mas no muito mais. Em mdia, os do grupo A resolveram quatro dos 20 problemas. J os do grupo B, que tinham a chance de mentir, disseram ter resolvido seis problemas - ou seja, apenas dois a mais. E esse aumento no resultou de poucos indivduos dizendo ter resolvido vrios problemas, e sim de muitas pessoas que mentiram s um pouco. 
     Cinquenta centavos  bem pouco. Quanto mentiriam os alunos do grupo B se pudessem ganhar mais? Por exemplo, US$ 1, US$ 2 ou at US$ 10 por cada resposta falsa? Assim foi feito. Mas deu na mesma: os mentirosos continuaram "acertando" duas respostas a mais, em mdia. "A quantidade de trapaa foi at um pouco menor quando prometemos aos participantes a maior quantidade de dinheiro - US$ 10 - por cada resposta correta", diz Ariely. Ou seja: quando a recompensa  baixa, mentimos moderadamente. Mas, se a recompensa for um pouco mais alta, tendemos a mentir menos, ainda que o risco de ser pego se mantenha o mesmo. E que, ao enganar muito os outros, fica mais difcil preservar o prprio senso de integridade. Na verdade, muitas vezes a mentira existe justamente para defender nossa autoimagem. E  isso que est por trs da exploso dela. 

ONDE NADA  O QUE  
     Quando se comunicam via mensagens de texto, as pessoas mentem trs vezes mais, em mdia, do que falando cara a cara. Usando e-mail, cinco vezes mais. Foi o que concluram os psiclogos Robert Feldman e Mattityahu Zimbler, da Universidade de Massachusetts Amherst, num estudo com 110 pares de estudantes que no se conheciam. Cada dupla conversou entre si por 15 minutos usando e-mail, mensagens ou ao vivo. Em seguida, os cientistas revisaram as conversas e entrevistaram novamente cada voluntrio, para detectar inverdades. E o festival de mentiras virtuais veio  tona. "Quando voc est online, fica menos contido. Os seus sinais faciais e comportamentos verbais no podem te delatar - e por isso  mais fcil ser enganoso", explica Feldman. Alm da distncia fsica entre as pessoas, a tecnologia proporciona uma distncia psicolgica, que torna mais fcil mentir. "As pessoas preferem enviar mensagens em vez de falar porque assim elas se escondem das outras, mesmo estando conectadas o tempo todo", diz Sherry Turkle, professora de estudos sociais do MIT e especialista nas relaes entre comportamento e tecnologia. Na prxima vez que voc andar pela rua, repare em quantas pessoas esto com o celular na mo e usando o WhatsApp. E entender por que nunca se mentiu tanto. 
     A mesma coisa vale para o e-mail e as redes sociais, com uma diferena: eles so ainda mais propensos  mentira, porque so assncronos. Isso significa que voc e as pessoas com as quais est se comunicando no se expressam ao mesmo tempo. Primeiro voc escreve o seu e-mail (ou post), depois os destinatrios lem e respondem. Voc tem tempo de pensar com calma antes de escrever. E isso muda tudo. "Ns apresentamos uma imagem editada do que somos, que podemos apagar ou retocar o tempo todo", lembra Turkle. Com certeza voc j escolheu quais aspectos da sua vida iria mostrar no Facebook, omitindo coisas ruins. H dez ou 15 anos, no era assim. Essas tecnologias no existiam. Todo mundo se comunicava bem menos. E mentia bem menos tambm. 
     A velocidade da internet tambm  uma grande aliada na propagao de mentiras. Um estudo da Universidade Columbia analisou 100 boatos e informaes falsas que se propagaram pela rede entre agosto e dezembro de 2014  e 1.500 reportagens, posts e artigos que foram escritos a respeito delas. Concluiu que notcias falsas tendem a se espalhar mais rpido e com mais fora do que as verdadeiras, e recebem dez vezes mais cliques do que eventuais desmentidos: porque a mentira, quase sempre,  mais espetacular (e, portanto, mais chamativa) do que a verdade. Seu mecanismo de propagao costuma ser sempre o mesmo. Primeiro algum posta um boato numa rede social. Sites ento replicam a "notcia", incentivando os leitores a compartilhar e curtir. Alguns endossam a informao, enquanto outros lavam as mos usando termos como "supostamente" ou ttulos na forma de pergunta ("Uma mulher implantou um terceiro seio?"). "Essa falta de verificao torna os sites de notcia alvos fceis para o embuste", diz o jornalista Craig Silverman, autor do estudo. E, com eles, os leitores. Quando voc est online, est sempre sujeito a mentiras - tanto as que os seus amigos e conhecidos praticam, quanto aquelas escritas em sites e blogs. E vivendo desse jeito, com pequenas mentiras entranhadas no dia a dia, abre-se espao para mentiras cada vez maiores. 

COMO A MENTIRA QUEBROU O MUNDO 
     Existem pessoas capazes de mentir em grande escala - a ponto de detonar a maior crise em dcadas. Foi o que aconteceu entre 2004 e 2007. Nesse perodo, funcionrios de grandes bancos de Wall Street mentiram sistematicamente para seus clientes, que eram induzidos a investir em ttulos podres. Os analistas do banco Morgan Stanley, por exemplo, vendiam investimentos imobilirios de alto risco - mesmo j sabendo que haveria calote, e os investidores iriam perder seu dinheiro. Isso ficou provado por e-mails em que admitiam a manobra e faziam piadas, se referindo aos ttulos como scaaaarryyyyy (assustadores) e crap (lixo). Continuaram mentindo at desencadear a crise imobiliria dos EUA e  o crash de 2008, do qual at hoje a economia global no se recuperou. Nenhum dos mentirosos foi preso - porque o governo americano optou por no process-los. 
     Falar em poltica e mentira, alis,  chover no molhado. Do ex-deputado federal Joo Alves, que disse ter ganho 200 vezes na loteria para justificar a origem de dinheiro ilcito ("Deus me ajudou"), ao ex-presidente Richard Nixon, ao negar envolvimento no caso Watergate ("no sou trapaceiro"), os polticos so famosos pela cara de pau. Mas, ao contrrio do que se pensa, eles talvez no sejam os campees da mentira. "As corporaes tambm buscam construir sua reputao usando argumentos similares. A diferena  que, como os polticos so muito expostos na mdia, fica parecendo que eles mentem mais", diz Malco Camargos, professor de cincias sociais da PUC-Minas. 
     Nas empresas, a forma de mentira mais comum  a omisso. Nos anos 1970, o Ford Pinto se tornou um dos carros mais populares dos EUA. Ele era bom, exceto por um detalhe: o tanque de gasolina ficava entre o eixo traseiro e o para-choque, exposto a parafusos que podiam perfur-lo em caso de batida. A Ford sabia que bastava colocar uma simples pea de plstico, de US$ 11, para evitar exploses. Mas preferiu vender o carro assim mesmo. Os engenheiros calcularam que no mximo 180 pessoas poderiam morrer em acidentes por causa daquilo, e sairia mais barato pagar as indenizaes do que colocar a pea em todos os carros. Dito e feito. Morreu gente, e os casos foram parar na Justia dos EUA - que teve acesso ao relatrio com a conta macabra. No foi o nico caso do tipo. Na dcada de 1960, a GM vendeu um carro, o Corvair, cuja suspenso usava peas baratas - e sabidamente perigosas. O assunto foi descrito no livro Unsafe at any Speed ("Inseguro em qualquer velocidade", sem edio em portugus), do advogado americano Ralph Nader. A GM tentou desacreditar Nader. Mas acabou tirando o carro do mercado. 
     Casos assim podem parecer absurdos, coisa de outro tempo. Mas at hoje a propaganda visita, de vez em quando, a fronteira entre verdade e inverdade. Porque temos certa tolerncia  cascata. De certa forma, queremos achar que o nosso celular  o melhor do mercado, acreditar que o suco que tomamos  100% natural ou que a atriz da novela usa mesmo o xampu que anuncia. Se voc tem mais de 30 anos, talvez se lembre do slogan "Danoninho vale por um bifinho". No vale, claro. Mas exageros assim continuam fazendo nossa cabea - embora alguns sejam desmascarados. Em 2010, a Comisso Federal de Comrcio dos EUA (FTC) acusou a Danone de exagerar na capacidade do iogurte Activia de regular a digesto. A empresa aceitou retirar o termo "clinicamente provado" dos rtulos e propagandas, alm de pagar US$ 21 milhes de multa. Caso parecido foi o de um tnis da New Balance, que prometia queimar mais calorias graas a uma revolucionria (e secreta) tecnologia de ativao muscular. Em 2011, consumidores entraram na Justia dizendo que era propaganda enganosa, com base em estudos que no detectaram nenhum benefcio. O fabricante fez acordo e pagou indenizaes. 
     Ok, voc pode desconfiar da publicidade e dos polticos. Mas e do seu mdico? Porque os mdicos mentem, sim. E no  pouco. Numa pesquisa feita em 2012 pela Escola de Medicina de Harvard, 34% dos doutores disseram que acham aceitvel omitir erros graves dos pacientes. E 20% admitiram ter ocultado um erro mdico, cometido no ano anterior, por medo de levar processo. J que estamos falando de sade: voc j deve ter ouvido que remdio  caro porque desenvolv-lo  caro.  uma meia-verdade. O desenvolvimento  caro mesmo -  preciso testar de 5 a 10 mil substncias para chegar a uma nova droga. Ocorre que os laboratrios gastam muito mais em marketing dos remdios do que em pesquisa cientfica. Em 2013, por exemplo, a gigante Johnson & Johnson, maior empresa farmacutica do mundo, gastou US$ 17,5 bilhes em marketing e promoo de vendas - o dobro do que investiu em pesquisa cientfica (US$ 8,2 bilhes), segundo um levantamento da empresa de pesquisas Global Data. Todos os outros grandes laboratrios fazem a mesma coisa. 

A EXTINO DA MENTIRA 
     A pessoa ruboriza, pisca muito, transpira, pe a mo na boca, mexe em objetos, evita o contato visual. Quando desconfiamos de algum e notamos indcios assim,  tiro e queda. Est mentindo! Ser mesmo? "No h tiques universais que indiquem que as pessoas estejam mentindo. Uma pisca rpido, mas outra pode olhar fixamente para voc, com longas pausas entre as piscadas", diz o psiclogo Robert S. Feldman, da Universidade de Massachusetts Amherst. Mesmo que voc se ache fera em detectar gente falsa, o fato  que voc cai como um patinho em metade das vezes. Foi o que os psiclogos Bella DePaulo e Charles Bond descobriram em 2006. Eles analisaram mais de 200 estudos, sobre o desempenho de 24 mil pessoas na deteco de mentiras. Concluso: conseguimos distinguir a verdade da mentira em apenas 54% do tempo.  praticamente a mesma chance de acerto que pegar uma moeda e jogar cara ou coroa. Puro chute. 
     E a polcia, que supostamente tem tcnicas para desmascarar mentirosos, no vai muito melhor. O psiclogo americano Paul Ekman avaliou a performance de agentes do Servio  Secreto dos EUA, da CIA e do FBI, alm de juzes, promotores, policiais, psiquiatras e estudantes. Os 509 participantes assistiram a dez vdeos curtinhos, de um minuto cada. Cada vdeo mostrava uma mulher contando o que sentiu sobre um filme que havia visto. Algumas mulheres mentiram, outras falaram a verdade. Aps ver cada entrevista, os participantes decidiam se a pessoa era honesta ou no. Os profissionais altamente treinados s conseguiram identificar as mentiras - adivinhe - na metade das vezes. Igual aos estudantes. Igual a todo mundo. 
     Por tudo isso, h quem aposte no famoso detector de mentiras: o polgrafo. Essa mquina, que no costuma ser usada no Brasil, mas  comum nos EUA, mede sinais como presso arterial, alterao da voz, suor, pulsaes e dilatao da pupila. Mas o problema dos polgrafos  que eles no detectam a mentira, e sim o medo. Muita gente fica ansiosa no porque est mentindo, e sim por se submeter ao teste. Se voc sente o corao pular na cadeira do dentista, imagine sendo interrogado com fios por todo o corpo. Por outro lado, pessoas que mentem sem demonstrar ansiedade tm mais chance de passar. Por isso, o polgrafo no  confivel (a propsito: os detectores de mentira para celular, aqueles aplicativos que s analisam a voz, no tm qualquer validade). 
     Mas existe uma coisa que promete avanos contra a mentira: a estimulao magntica transcraniana (tDCS). Essa tcnica consiste em aplicar campos magnticos sobre o crebro, interferindo com sua atividade eltrica - e, com isso, estimular ou inibir determinadas reas. Foi o que aconteceu num polmico estudo feito na Universidade de Talinn, na Estnia. Os voluntrios viam duas bolinhas, uma vermelha e outra azul, se alternando numa tela de computador. Eles eram orientados a mentir, ou seja, falar outra cor (qualquer uma) que no a verdadeira. Mas, em alguns casos e sem que as pessoas soubessem, seus crebros estavam sendo estimulados. Um campo magntico era aplicado sobre o crtex pr-frontal dorsolateral, regio que acredita-se estar relacionada  mentira. Quando isso acontecia, as pessoas passavam a mentir um pouco menos: elas simplesmente no conseguiam mentir tanto, mesmo se quisessem. Talvez um dia seja possvel usar essa tcnica para criar uma "mquina da verdade" neurolgica. 
     Mas o estudo foi pequeno, e o efeito conseguido foi modesto. O fato  que a mentira continuar conosco para sempre. E  inevitvel que, daqui a alguns minutos, horas ou dias, voc conte a sua prxima. Resta tentar us-la para o bem. Como dizia o poeta Noel Rosa: "Saber mentir  prova de nobreza/Pra no ferir algum com a franqueza/Mentira no  crime/ bem sublime o que se diz/Mentindo para fazer algum feliz."


Postou foto arrasando na balada, mas na verdade estava em casa de pijama. Uma mentira tpica das redes sociais  onde as pessoas mentem de trs a cinco vezes mais do que cara a cara.

Mentir no trabalho virou quase regra.
Em 99,9% dos casos, os candidatos aumentam o nvel de proficincia em lngua estrangeira. Se dizem que so fluentes em ingls, na verdade tm nvel avanado", diz Henrique Baio, gerente da empresa Michael Page, especializada em recrutar executivos.

No amor nada  o que parece ser
Pesquisa feita pela Universidade Cornell constatou que 80% das pessoas que buscam uma cara-metade pela internet contam alguma mentira  geralmente relacionada a sua altura (48%), peso (59,7%) ou idade (18%). Em todas as categorias, os homens mentem mais que as mulheres.

A propaganda tambm mente
E por um motivo simples: funciona. No porque sejamos bobos, mas porque muitas vezes acabamos querendo acreditar no que ele diz  que o nosso celular  o melhor, o suco que tomamos  100% natural ou que a atriz da novela usa o mesmo xampu que ns.

E at os mdicos mentem
Numa pesquisa feita em 2012 pela Escola de Medicina de Harvard, menos do que 34% dos mdicos disseram que  aceitvel omitir erros graves dos pacientes. E 20% admitiram ter feito isso: ocultado um erro mdico, cometido no ano anterior, por medo de processo.

O CENSO DA MENTIRA
A SUPER realizou, pelas redes sociais, uma pesquisa sobre mentira. 11.106 pessoas responderam. Confira os principais resultados: [*Colaboraram Camila Felix, Otvio Cohen e Priscila Bellini.]

Seu (sua) namorado(a) quer sair, mas voc no. Voc inventa uma desculpa?
Sim 59,6%

Seu irmo ou irm foi trado(a) pelo cnjuge - e voc ficou sabendo. Mas hoje eles vivem felizes. Voc omite a traio?
Sim 73,7%

Seu colega de trabalho foi para outra empresa. Tudo bem pegar aquela ideia genial dele e mentir que  sua?
Sim 29,3%

Pintou um programa superlegal e voc quer faltar no emprego. Tudo bem mentir que est doente?
Sim 40,3%

Voc viajou aos EUA e comprou eletrnicos. Voc mente na alfndega para tentar pagar menos imposto?
Sim 62,8%

Chegou a hora de fazer o Imposto de Renda. Voc mente na declarao para pagar menos?
Sim 47%

QUEM VOC ACHA QUE MAIS MENTE PARA VOC?
Famlia
Mente muito: 27%
Mdio: 56%
Mente pouco: 17%

Trabalho
Mente muito: 37%
Mdio: 50%
Mente pouco: 13%

Amigos
Mente muito: 46%
Mdio: 46%
Mente pouco: 8%

Cnjuge
Mente muito: 22%
Mdio: 44%
Mente pouco: 34%

Autoridades
Mente muito: 92%
Mdio: 7%
Mente pouco: 1%

QUAL MENTIRA VOC MAIS CONTA?
49,2% "EST TUDO BEM"
44,7% "EU NO SABIA"
37% "EU ESTAVA S BRINCANDO"
31% "MEU CELULAR ESTAVA SEM SINAL/BATERIA"
22% "J ESTOU A CAMINHO"


4#2 HISTRIA  O LADO B DA SEGUNDA GUERRA
O segundo pas com mais mortos foi a China. E o Japo perdeu cinco vezes mais soldados que os EUA. Conhea a outra face do conflito.
Infogrfico Fbio Morton, Alexandre Versignassi e Fabricio Miranda

DIA D, HITLER... Falou em Segunda Guerra, pensou no front europeu. O front do Pacfico s  lembrado mesmo quando se fala de Hiroshima, o marco que encerrou a guerra, h 70 anos, em agosto de 1945. Mas a verso oriental do conflito foi muito mais do que isso. Para comear, os japoneses mataram quase tanta gente quanto os nazistas, e quase acabaram com a China. Veja. 

CHINA 20 milhes de mortos
FILIPINAS 1.057.000 mortos
NDIAS ORIENTAIS HOLANDESAS 4.011.500 mortos
UNIO SOVITICA 17.500 mortos
INDOCHINA FRANCESA 1.500.000 mortos
JAPO E TAILNDIA 2.520.600 mortos
EUA 112.667 mortos
NDIA 2.500.000 mortos
BURMA 286.400 mortos
CINGAPURA, MALSIA E OUTROS 570.960 mortos
COREIA 473.000 mortos

MORTOS NO OCIDENTE
307 mil EUA
445 mil REINO UNIDO
457 mil ITLIA
566 mil FRANA
1 milho IUGOSLVIA
5 milhes OUTROS
5,6 milhes POLNIA
8,8 milhes ALEMANHA
24 milhes RSSIA

BEM MAIS CIVIS QUE MILITARES
Ainda que a guerra na Europa tenha causado um total maior de vtimas, na sia, a situao foi pior para os civis, considerada a proporo dos mortos: de cada cinco mortos, quatro foram civis. Na Europa foi basicamente meio a meio.
FRONT PACFICO  32,5 milhes
Mortos Militares: 18%
Mortos Civis: 82%

FRONT OCIDENTAL  46,2 milhes
Mortos Militares: 44%
Mortos Civis: 56%

CHINA
A outra Unio Sovitico. 
A China perdeu um em cada 25 habitantes na Segunda Guerra. Foram 20 milhes de mortos, numa populao de 500 milhes. Assim, s perde nesse quesito para a Unio Sovitica, que teve 24 milhes de mortos. Alm disso, sofreram de tudo nas mos dos seus algozes, os japoneses: estupros em massa, experimentos em cobaias humanas e armas biolgicas, como uma bomba de peste bubnica.

JAPO
Cinco vezes mais soldados mortos que os EUA
Mais de 80% dos mortos no Japo foram militares. D 2 milhes de soldados, bem mais que os 400 mil americanos mortos nos dois fronts. Os 400 mil civis japoneses que morreram foram vtimas dos bombardeios americanos. A maior parte em apenas trs: 100 mil nos bombardeios incendirios a Tquio mais 200 mil em Hiroshima e Nagasaki.

TAILNDIA
O nico aliado dos japoneses na sia.
Em dezembro de 1941, o Japo invadiu a Tailndia. Estavam s de passagem, a caminho do ataque  colnia britnica de Burma (atual Mianmar). Os tailandeses desistiram rapidinho - no s deram passagem aos Japoneses, como se tornaram seus nicos parceiros para valer na guerra - Alemanha e Itlia mal colaboraram no Pacfico. De qualquer forma, foram poucos mortos tailandeses: 5.600 militares e 2 mil civis.

COLNIAS EUROPEIAS
Um holocausto inteiro.
Morreram quase tantos civis nas colnias da Holanda e da Frana na sia quanto judeus na Europa: 5,5 milhes somando as mortes na Indonsia (holandesa) e na Indochina Francesa (atuais Laos, Camboja e Vietn). 

EUA
Um quarto deles morreu no Pacfico.
No foram apenas soldados dos EUA que morreram no front do Pacfico. 992 civis americanos que viviam na sia morreram em campos de concentrao japoneses. Curiosidade: bales incendirios do Japo fizeram seis vtimas em pleno territrio americano, no Estado do Oregon.

NDIA
Duas iugoslvias e uma Frana.
Os mais de 2 milhes de mortos na ndia foram basicamente de civis que pereceram por fome e doenas decorrentes da guerra. Militares mesmo morreram "s" 87 mil (quase um quarto do total dos EUA).


4#3 PERFIL  O DRONE DO ABORTO
Conhea Rebecca Gomperts, a mdica que usa drones e navios em alto-mar para levar o aborto seguro a mulheres em pases onde a prtica  proibida.
Reportagem Renata Miranda, de Frankfurt an der Oder, Alemanha.
Edio Karin Hueck

     O CU SOBRE O RIO ODER, que divide a Alemanha e a Polnia, amanheceu nublado em 27 de junho. Do lado alemo, em Frankfurt an der Oder, a mdica Rebecca Gomperts caminhava de maneira impaciente de um lado para outro, dividindo sua ateno entre o celular e ativistas que, na margem polonesa do rio, na cidade de Stubice, acenavam em sua direo.  
     Por volta das 10h30, ela deixou o territrio alemo, onde dois tcnicos ficaram responsveis por controlar drones que deveriam sobrevoar a fronteira entre os dois pases carregando medicamentos. Rebecca cruzou com passos curtos e rpidos a ponte de 250 metros que liga a Alemanha  Polnia. Sempre atenta e um tanto paranica com relao  segurana, ela se juntou s outras ativistas nos preparativos para a chegada dos robs areos. 
     s 11h03, o primeiro drone saiu de Frankfurt an der Oder e, dois minutos depois, pousou em Stubice, com duas caixas dos remdios Mifepristone e Misoprostol. O segundo carregamento, no entanto, no conseguiu cruzar a fronteira por causa de problemas com a polcia alem, que interrompeu a ao e confiscou o controle dos drones e dois iPads dos controladores - eles foram acusados formalmente pelas autoridades da Alemanha, mas ainda no  claro qual lei eles violaram. 
     Na margem polonesa do Rio Oder, duas jovens esperavam ansiosamente a chegada do drone com os remdios. Aps o pouso do rob, elas tomaram a primeira dose do Mifepristone ali mesmo, em meio a manifestantes que seguravam fetos de borracha. Elas queriam interromper suas gestaes. Marta, de 30 anos, mora em Varsvia e ficou sabendo da ao por meio de amigos. Ela percorreu de carro os cerca de 100 quilmetros da capital polonesa at Stubice para receber o medicamento, que interrompe a gravidez. Enquanto na Alemanha as plulas podem ser  compradas em qualquer farmcia por preos que variam de 50 a 150 euros, na Polnia elas circulam na clandestinidade e podem chegar a 1.000 euros. Para completar o procedimento, 24 horas depois, Marta teria de colocar quatro comprimidos de Misoprostol via sublingual. A combinao dos dois remdios provoca clicas no tero que levam ao aborto espontneo em gestaes de at nove semanas ou 63 dias. "O fato de eu querer abortar de maneira segura faz de mim uma mulher irresponsvel e sem autocontrole perante a sociedade polonesa", disse Marta, que no quis revelar o sobrenome, minutos depois de tomar um tablete de 200 mg de Mifepristone. 
     A ao de levar remdios abortivos da Alemanha (onde interromper uma gravidez  permitido) para a Polnia (onde no ) havia sido organizada pela Women on Waves, a WoW, organizao criada por Rebecca em 1999 para dar auxlio a mulheres que querem abortar de maneira segura. Secretamente, porm, Rebecca desejava que aquela fosse a ltima ao da WoW. "Eu sonho com o dia em que tudo isso no seja mais necessrio", disse Rebecca. "No momento em que o aborto for considerado um procedimento mdico normal, ao qual as mulheres possam ter acesso sem ter de lidar com o tabu ou com a vergonha, ento esse ser o momento em que ns no teremos mais razo para existir." 
     A ideia de usar os remdios para quem no quer levar adiante uma gestao indesejada, porm, no  de Rebecca. Os dois medicamentos so recomendados pela Organizao Mundial da Sade (OMS) a mulheres que desejam abortar de maneira segura. No relatrio Abortamento Seguro: orientao tcnica e de polticas para sistemas de sade, publicado em 2012, o rgo da ONU estima que, anualmente, 22 milhes de abortamentos inseguros sejam feitos ao redor do mundo - dos quais 98% ocorrem em pases em desenvolvimento, onde o procedimento costuma ser ilegal. A OMS ainda calcula que pelo menos 47 mil mulheres morram todo ano por causa de complicaes de um aborto inseguro. Ainda segundo a organizao, 5 milhes de mulheres passam a sofrer de disfunes fsicas e mentais como resultado das dificuldades decorrentes de procedimentos feitos sem a assistncia mdica bsica necessria. 
     Foi diante desse cenrio que Rebecca decidiu agir. Nascida no Suriname em 1966, ela foi criada na Holanda, para onde se mudou com os pais aos 3 anos de idade. Ela conta que sua famlia nunca discutiu a questo do aborto, apesar de o procedimento ter sido legalizado no pas na dcada de 1980, durante sua adolescncia. Aps estudar simultaneamente medicina e arte em Amsterd, Rebecca foi trabalhar como mdica a bordo do navio Rainbow Warrior II, do Greenpeace, que protestava contra  derramamentos de petrleo. Durante uma das viagens do grupo  Amrica do Sul, ela teve contato com muitas mulheres que, por viverem em pases onde o aborto era ilegal, haviam passado por dor e sofrimento ao serem confrontadas com uma gravidez indesejada. 
     "Eram mulheres que foram estupradas, que no tinham como se sustentar. E que foram desprezadas por suas comunidades", lembra Rebecca. Foi por causa dessas mulheres e dessas histrias que, em 1999, ela criou a Women on Waves ("Mulheres sobre as ondas"). 
     A organizao, financiada por doadores annimos, promove aes para educar mulheres sobre o aborto mdico feito apenas com medicamentos. Segundo a entidade, esse tipo de aborto  "mais seguro do que parir uma criana". Entre as aes mais famosas do grupo esto as campanhas realizadas em navios na costa de pases onde o procedimento  proibido. Como o navio utilizado  registrado na Holanda, em guas internacionais - a 12 milhas ou 19,3 quilmetros da costa -, as leis em vigor dentro da embarcao so as mesmas da legislao holandesa. Assim,  possvel dar informaes sobre o tema, alm de distribuir contraceptivos e realizar abortos legais e seguros. 
     Em 11 de junho de 2001, o navio da WoW partiu rumo  sua primeira expedio. O destino era a Irlanda, pas tradicionalmente catlico, com uma das legislaes mais restritivas na Europa em relao ao aborto. A viagem durou dois dias. Quando a embarcao, com uma tripulao composta em sua maioria por mulheres, chegou aos portos irlandeses, a WoW j registrava pelo menos 80 pedidos de aborto - em cinco dias, o nmero de ligaes pedindo informao sobre os servios oferecidos no navio chegou a 300. 
     Desde sua primeira viagem, em 2001, para a Irlanda, o navio da WoW j visitou a Polnia, Portugal, a Espanha e o Marrocos. Em Portugal, a embarcao das ativistas foi impedida de entrar em guas nacionais e foi bloqueada por dois navios de guerra do pas. No Marrocos, a polcia no Porto de Smir proibiu o acesso ao navio da WoW. O trabalho de Rebecca e de sua organizao foi tema do documentrio Vessel, da cineasta Diana Whitten, lanado em 2014. 
     Em 2008, a WoW chegou a planejar uma campanha no Brasil. A dificuldade na logstica devido ao tamanho do Pas e a complicada situao legal, no entanto, impediram que os planos sassem do papel. Rebecca ainda alega que a influncia de organizaes religiosas nos altos escales do governo brasileiro impede o progresso no debate sobre a legalizao do aborto. "Os fundamentalistas cristos e evanglicos tm tanto poder na poltica brasileira que no h espao para avanar com nenhum projeto do tipo no momento", diz a mdica. "Acho que, atualmente, o Brasil  um dos pases mais difceis no mundo todo quando o assunto  aborto." 
     A legislao brasileira permite o aborto em apenas trs casos: quando a mulher foi estuprada; quando h risco de morte para a me; ou quando o feto  anencfalo. Nessas circunstncias, o procedimento pode ser realizado em todos os estabelecimentos do SUS com servio de obstetrcia. Nos casos de estupro, por exemplo, os hospitais no podem se negar a fazer o servio ou sequer exigir das vtimas boletins de ocorrncia que comprovem o crime - embora muitos desobedeam   lei. O Ministrio da Sade calcula que 1.575 abortos legais foram realizados no Brasil em 2014 - em 2010, esse nmero foi de 1.682. Em todos os outros casos, interromper a gravidez  crime - tanto a mulher como a pessoa que faz o procedimento podem ser punidas com um a dez anos de priso. 
     O Brasil tem uma relao complicada com o aborto. Embora 79% da populao se declare contra a legalizao do procedimento, a Pesquisa Nacional do Aborto indicou que o aborto  to comum por aqui que, ao completar 40 anos, mais de uma em cada cinco mulheres j fez um. O que se entende  que ningum se declara a favor de interromper uma gravidez - mas ao se verem obrigadas a terem um filho sem condies, milhes de mulheres procuram o procedimento. Mesmo com o risco de priso. "A proibio do aborto  uma maternidade forada e as pessoas precisam pensar no que vai resultar se voc forar uma mulher a ser me. Ser me contra a vontade no tem nada a ver com maternidade", disse a jurista Silvia Pimentel, coordenadora de um programa da ONU, no 1 Seminrio Internacional Violncia Contra as Mulheres.  
     Alm das restries impostas pela legislao brasileira em relao ao procedimento, Rebecca - que tem uma filha de 10 anos e um filho de 9 - acredita que a questo por aqui  ainda mais complicada por causa da alta desigualdade social e da dificuldade no acesso ao Cytotec, o remdio que tem os mesmos efeitos do Mifepristone e do Misoprostol. Mesmo assim, ela no descarta a possibilidade de uma ao futura em territrio nacional. Rebecca ainda v a ignorncia e o preconceito como os principais inimigos do trabalho da WoW. "Em todos esses anos j perdi a conta de quantas mulheres vieram me falar que precisavam fazer um aborto, mas que eram contra o procedimento", diz a mdica. Segundo ela, o tabu sobre o tema causa um sofrimento enorme para quem se v nessa situao. "O que mais me incomoda  a enorme injustia social causada pela proibio", diz Rebecca. "Mulheres esto morrendo. Crianas esto perdendo suas mes, maridos esto perdendo suas esposas, e muitas mulheres esto sofrendo - o que teria fim caso o procedimento fosse legalizado." 

DIREITO DE ESCOLHA
208 milhes de mulheres ficam grvidas anualmente
59% (ou 123 milhes) delas tm uma gravidez planejada ou desejada
41% (ou 85 milhes) das gestantes restantes so indesejadas
Fonte: Abortamento Seguro: orientao tcnica e de polticas para sistemas de sade de (2012), Organizao Mundial da Sade (OMS)

MAPA DO ABORTO
Nos pases em desenvolvimento, mulheres que abortam vo para a cadeia.

BRASIL 
CRIME: Proibido, a no ser em excees muito extremas.
O aborto  ilegal. No entanto, pode ser feito em casos de estupro ou quando a gravidez coloca em risco a vida da gestante. O Misoprostol  conhecido como Cytotec e Prostokos. O medicamento, porm,  difcil de conseguir.

URUGUAI
LEGAL: Permitido
 legal desde 2012 at a 12 semana de gestao. Em casos de estupro, o prazo vai para 14 semanas de gestao.

POLNIA
QUASE CRIME: Permitido apenas em alguns casos, como estupro ou incesto, ou quando h risco para a gestante ou para o feto.
Um dos poucos lugares da Europa onde o procedimento  ilegal. H excees para estupro, incesto, risco para a gestante ou danos para o feto.

IR
CRIME: Proibido, a no ser em excees muito extremas.
O aborto  ilegal, mas pode ser realizado para salvar a vida da gestante. O Misoprostol  registrado e pode ser comprado em farmcias com receita mdica.


4#4 GASTRONOMIA  A VIDA DE GADO DO ATUM
A criao em fazendas aquticas tem garantido o estoque imediato de atum fresco, mas tambm deixa o peixe mais cobiado do mundo em risco de extino. E agora? Quem poder salvar nossos temakis?
Texto Marcos Nogueira 
Edio Alexandre Versianassi

     FRANGO DO MAR  EM INGLS, Chiken of the Sea. Este  o nome de uma marca hoje pertencente ao maior fabricante de atum em lata do mundo, o Thai Union Group. A comparao fazia sentido em 1914, quando a Chicken of the Sea foi criada: o atum, at ento destinado majoritariamente  alimentao de gatos, comeava a ganhar importncia na dieta dos humanos dos Estados Unidos. Para convenc-los a comprar a novidade, exaltava-se a qualidade do produto: carne macia, de sabor suave. 
     Com o devido respeito aos galinceos, a analogia  uma afronta ao atum. Como o mundo viria a aprender ao longo do sculo 20, esse peixe de sangue quente tem uma das carnes mais saborosas dos mares. Por isso mesmo, o atum tornou-se um favorito global. Sua carne gorda e suculenta est presente em uma gama enorme de pratos, que vo da larica improvisada  alta gastronomia. 
     At porque o preo do atum varia imensamente, de acordo com a espcie. As mais valorizadas so a Thunnus maccoyii, a Thunnus orientalis e a Thunnus thynnus, todas conhecidas pelo nome genrico bluefin - "barbatana azul". So animais enormes - o maior bluefin  j capturado pesava 780 quilos, tanto quanto um Fusca. Eles so, portanto, vendidos aos pedaos. A parte mais apreciada e mais cara encontra-se na barriga do peixe. A ventrecha do bluefin, mais conhecida por seu nome em japons (o-toro),  uma carne gorda, rosada. Deliciosa. Um nico sushi desse corte chega a custar R$ 100 nos restaurantes de So Paulo. Como um sushi leva entre 10 gramas e 15 gramas de peixe, o quilo do o-toro pode chegar a R$ 10 mil para o consumidor final. 
     O lucro insano que um nico atum pode proporcionar fez com que a biloga marinha americana Barbara Block, da Universidade Stanford, apelidasse o bluefin de cocana do mar. Mais potica, a pesquisadora inglesa Lucy Hawkes, da Universidade de Exeter, chama o atum de Ferrari do oceano. Os cardumes, com algumas dezenas de indivduos, fazem viagens transocenicas a 90 quilmetros por hora. "Para os bilogos, o atum  o eptome da excelncia hidrodinmica; ele  rpido, poderoso e tem o design ideal", derrama-se Kichard Ellis, tambm bilogo marinho.[*No livro Tuna: a Love Story (Atum: uma Histria de Amor, sem traduo para o portugus]. 
     A indstria da pesca, menos reverente, fez do atum uma espcie de boi martimo. Mas no por se tratar de um peixe grande e de carne vermelha, e sim porque a altssima demanda pelo bluefin fez surgir um sistema de produo semelhante ao do gado. Os animais so confinados em currais flutuantes, onde no fazem nada alm de comer at atingir o peso ideal para o abate. O mtodo mostrou-se ainda mais daninho  espcie do que a pesca indiscriminada, pois presume a captura de animais muito jovens para o confinamento. Como esses peixes so impedidos de procriar, a populao de bluefin est caindo num ritmo preocupante. 

Sommeliers de atum 
     Em dezembro de 2004, o jornal japons Yomiuri Shimbun estampou uma notcia curiosa. O cliente de um sushi bar de Nagoya acusou o dono do estabelecimento de mentir sobre a procedncia do atum. O peixe era vendido como se houvesse sido pescado no Estreito de Tsugaru, entre as ilhas de Honshu e Hokkaido. Ao provar seu sashimi, o homem achou a carne gordurosa demais para um animal capturado na natureza. Ele tinha razo a respeito da fraude: uma investigao provou que a origem do pescado era uma fazenda de atum na Turquia. 
     No surpreende tamanha sensibilidade. O Japo consome 80% de todo o atum bluefin pescado ou criado no mundo. No Brasil, ele  pouco servido. Mas l a obsesso chega a ponto de existirem especialistas anlogos aos sommeliers de vinho - gente capaz de identificar, pelo sabor, o terroir do peixe, no caso, o habitat de onde ele veio. A exibio mais gritante da "atumania" japonesa  o mercado de Tsukiji, em Tquio, onde todas as manhs so leiloados  centenas de peixes para varejistas e donos de restaurantes. Uma vez ao ano, no primeiro sbado de janeiro, h um leilo cerimonial em que um exemplar de bluefin  arrematado por um preo exorbitante - por uma questo de marketing, j que o restaurante vencedor ganha fama nacional instantaneamente. O recorde foi estabelecido em 2013: US$ 1,76 milho por um peixe que depois renderia US$ 80 mil com a venda da carne, mais um valor intangivelmente alto para a imagem do estabelecimento vendedor da carne. 
     At meados do sculo passado, nem o Japo nem lugar algum no mundo dava valor ao atum bluefin. Enquanto espcies menores, como a albacora e o atum-bonito, j alimentavam a gigantesca indstria de enlatados (que corresponde a 99% do mercado de atum), a carne do grando de barbatanas azuis era vendida para alimentar gatos. "Ningum apreciava a carne sangunea, de sabor intenso", diz a chef Telma Shiraishi, do restaurante paulistano Aizom, pesquisadora dos hbitos alimentares japoneses. 
     A mudana veio na esteira de dois marcos histricos: o barateamento dos equipamentos de refrigerao e a vitria aliada na Segunda Guerra. Freezers deixaram mais acessvel o peixe cru, o que proporcionou a exploso do consumo de sashimi e sushi no Japo. J a tara por atum bluefin  cortesia dos EUA. 
     Depois de Hiroshima e Nagasaki, o Japo foi bombardeado outra vez - agora pela cultura americana, e mudou seus hbitos alimentares. "Foi por influncia ocidental que comearam a apreciar as carnes mais gordas, como a do bluefin." Para saciar esse novo apetite, a pesca evoluiu para mtodos cada vez mais eficazes (e destrutivos): barcos com mltiplas varas de pescar, redes flutuantes com quilmetros de extenso e o espinhel, uma traquitana flutuante com muitas linhas e anzis (veja no infogrfico da prxima pgina). A voracidade dos pescadores e de seus clientes fez com que os cardumes minguassem, o que quase aniquilou o mercado de atum nos anos 1990. Os animais capturados eram pequenos demais para ter valor comercial. 
     Foi quando comeou, na Austrlia, a criao de atum em cativeiro - ou quase isso. No existe maricultura legtima de atum porque at hoje ningum conseguiu dominar o processo inteiro, a partir da ecloso dos ovos. As fazendas - ou ranchos - de bluefin so povoadas com peixes jovens, capturados nos oceanos. Eles no se reproduzem em cativeiro. Ao encarcerar um atum, ento, voc elimina a chance de que ele se reproduza. 
     Um helicptero localiza o cardume de atuns adolescentes e avisa o barco pesqueiro. A embarcao envolve os peixinhos com uma rede, que  arrastada dentro d'gua at o curral fixo. Trata-se de uma estrutura circular e flutuante, no meio do mar, em que os atuns vo morar at morrer. Nesse intervalo, que pode durar vrios meses ou at um ano, eles so alimentados intensivamente com peixes menores - sardinhas, principalmente. Quando est gordo o bastante para o leilo de Tsukiji, dois "caubis de atum" cuidam do abate como boiadeiros encarregados de capturar uma rs desgarrada. Um deles entra no curral usando equipamento de mergulho e escolhe a vtima, que  forada a nadar at uma plataforma acoplada a um barco. L o peixe  agarrado a partir das guelras pelo segundo caubi, que desfere o golpe  mortal no crebro, com um arpo. Hoje, alis, as fazendas de bluefin esto espalhadas pelo mundo, de Cabo Verde s Filipinas, mas no existem no Brasil - as frotas japonesas aniquilaram os cardumes, antes abundantes no Nordeste, j nos anos 1970. A produo  maior no Golfo da Califrnia (Mxico) e no Mar Mediterrneo, zonas naturais de reproduo do peixe. 
     Embora seja impossvel fazer recenseamento de peixes, a variao no nmero de indivduos pode ser verificada pela disponibilidade da pesca. A populao de bluefin selvagem est em evidente declnio. Para interromper esse processo, entidades ambientais tentam estabelecer cotas, mas encontram uma srie de obstculos. 
     O mais bvio  a resistncia das partes economicamente interessadas: sempre que a restrio  posta em discusso, surge o argumento do desemprego que ela geraria na indstria da pesca. 
     Mas existe uma boa notcia. Os consumidores japoneses parecem ter percebido que algo precisa ser feito para o sushi no sumir do mapa. Nos ltimos dois anos, o lance vencedor do leilo de janeiro em Tsukiji despencou de quase US$ 2 milhes para US$ 37,5 mil - sinal de que o marketing ligado  pesca irresponsvel de atum no funciona mais. 
     E a notcia mais promissora dos ltimos tempos para os fs do peixe tambm vem do Japo: em abril deste ano, um time da Universidade Kinki, em Wakayama, anunciou que conseguiu procriar o bluefin em cativeiro. Se vai dar certo em escala industrial, no se sabe ainda. Mas caso esse tipo de iniciativa fracasse, no tem outra sada: os melhores restaurantes de sushi vo perder seu grande e gordo protagonista.


4#5 NU & CRU
Por dentro do atum e do mercado global que gira em torno da Ferrari dos oceanos.
Infogrfico Giselle Hirata, Pedro Lambuja, Flvio Pessoa e Tiago Jokurq

PESQUE PAGUE
Japo e EUA abocanham 90% do atum mundial.
Morte controlada - O modo de capturar e conservar influencia na qualidade da carne. Evitar que o peixe se debata e agonize minimiza o estresse e garante maciez.  importante pendurar o atum e fazer cortes para que o sangue escorra e no se misture  carne.
Caiu na rede - A tcnica de pesca mais comum  a do espinhel: uma resistente linha de nilon de at 80 km de comprimento na qual so presas at 2 mil linhas com anzis entre 45 e 80 m de profundidade. Na superfcie, boias com sinal de rdio informam a captura de peixes.
Transporte - No Japo, 80% do atum viaja em frigorficos (areos, navais ou terrestres) a at -70 C. Esse supercongelamento com nitrognio lquido mantm as caractersticas do peixe - cor, sabor, odor e textura.
Caa ao tesouro - O bluefin  abundante em guas profundas e frias do Atlntico Norte e do Pacfico Norte.  onde eles so maiores e tm mais gordura, que serve como isolamento trmico. J as fazendas de atum esto bem mais espalhadas pelo globo. 

TODOS OS CORTES
Concentrao de gordura  o que define o uso da carne.
DO GALPO AO BALCO
A carne  separada da carcaa na peixaria, que vende grandes cortes para os restaurantes. Os sushimen dividem as peas em blocos menores.  desses pedaos que fatiam o sashimi.
CABEA A PRMIO  Para o sangue escorrer, so feitos cortes na lateral e abaixo da guelra, alm do furo na nuca  onde vai o gancho que pendura o peixe.
KAMA-TORO - corte gordo da bochecha.
SEKAMI  carne magra de qualidade mdia.
SENAKA  melhor corte magro.
O-TORO - corte mais gordo, caro e apreciado.
CHU-TORO - teor mdio de gordura.
SESHIMO - carne magra  menos cotada.
HARASHIMO - bom para recheios.

Akami -  Carne mais saborosa: magra e avermelhada. O dorso tem carne mais magra e  dividido em trs partes de vermelho intenso, que desbota aos poucos do meio para o rabo sekami, senaka e seshimo. 

Toro -  Carne da barriga: gorda, rosada e cobiada. Derrete na boca. Pode ser dividida em o-toro, com muita gordura entranhada (o que confere aspecto marmorizado  carne), chu-toro e harashimo, mais usado como recheio de rolinhos (hossomaki e uramaki) ou de temakis.

SIMILARES E GENRICOS
Bluefin quase no  servido no Brasil. Por aqui, os cortes mais seletos so de outras duas espcies: bigeye e yellowfin. O atum em lata  fabricado a partir de variedades com menos de 10 kg, como albacora e atum-preto. 

BLUEFIN
3m
+500 kg
R$ 180/kg [*Preo mdio para atacado, em Tquio] 

YELLOWFIN
2m
At 180 Kg
R$ 45/kg

BIGEYE
2m
+200 kg
R$ 42/kg

MILHES EM MARKETING
Arrematar para o seu restaurante o primeiro atum de grande porte leiloado no ano s faz sentido pelo marketing, j que o dono do lance vencedor ganha fama nacional no Japo. Em 2013, a rede de sushi Zanmai arrematou o seu por quase US$ 2 milhes. E a venda da carne gerou "s" US$ 75 mil.
O quilo saiu por US$ 7,9 MIL
Cada um dos 14.800 sushis foi vendido por US$5
O "prejuzo" foi de US$ 168 MILHO
Para empatar a despesa, s se cada sushi custasse US$119


ATUM NDEX
A cotao no  mais aquela.
O crash do bluefin -  Todo ano, o mercado de Tsukiji, em Tquio, faz um leilo cerimonial em que os bluefins j alcanaram preos absurdos. Mas essa onda j acabou.
2008 US$ 173 mil. 202 kg.
2009 US$ 104 mil. 128 kg.
2010 US$ 175 mil. 232 kg.
2011 US$ 396 mil. 342 kg.
2012 US$ 1,3 milho. 269 kg.
2013 US$ 1,76 milho. 222 kg.
2014 US$ 61,1 mil. 230 kg.
2015 US$ 37,2 mil. 180 kg.

Fontes Hideki Fuchikami, chef do Hideki Sushi; Ricardo Mikio Hamada, do Irmos Hamada Peixaria Popular; Fernanda Iervolino, sushiwoman do blog Sushi a La Carte; Food and Agriculture Organization (FAO); Greenpeace; WWF; National Geographic Society; Japan National Tourism Organization; Documentrio Sushi: The Global Catch e livro The Sushi Economy, de Sasha Issenberg.


4#6 CULTURA  LNGUAS EM EXTINO
Quando uma lngua morre, desaparecem com ela culturas, mitologias e conhecimentos cientficos. A m notcia  que estamos no meio da maior extino de idiomas que a Terra j viu.
Reportagem Luiz Romero
Edio Karin Hueck

     Pergunte aos tofas como o mundo surgiu e eles no sabero a resposta. Essa pequena tribo siberiana, situada entre a Rssia e a Monglia, est esquecendo a mitologia que explica seu prprio nascimento. Esse torpor coletivo  resultado de uma perda ainda maior: os tofas esto esquecendo sua prpria lngua. "A morte de um idioma comea com um trauma", explica Leanne Hinton, especialista em revitalizao lingustica da Universidade da Califrnia. "Pode acontecer pela perda de territrio ou por mudanas foradas  cultura tradicional." 
     No caso dos tofas, foram as duas coisas. Eles sempre foram nmades: vagavam pelas plancies da Sibria com rebanhos de centenas de renas. Depois da revoluo comunista, foram obrigados pelo regime a escolher  apenas uma regio para habitar. Nas dcadas seguintes, os adultos tiveram que abandonar o xamanismo e roupas tradicionais, enquanto as crianas passaram a frequentar escolas soviticas. O tofalar, idioma do grupo h sculos, comeava a morrer. 
     "Lnguas minoritrias so sufocadas por idiomas maiores", explica o linguista americano David Harrison, que descreveu o grupo em When Languages Die ("Quando Lnguas Morrem", sem edio no Brasil). No caso dos tofas, foi o russo, mas exemplos no faltam. Afinal, num mundo cada vez mais urbano e conectado, fica mais fcil sobreviver falando japons, francs ou portugus em vez de ainu, breto ou kano. Segundo uma estimativa da Unesco, como resultado dessa mudana de idiomas pequenos para grandes, metade das 7 mil lnguas que existem hoje no planeta devem silenciar no decorrer deste sculo. Na verdade, uma lngua pode sumir em apenas algumas dcadas. No caso dos tofas, idosos ainda lembram algumas palavras em tofalar, mas no passam esse conhecimento para frente. Logo, a morte do ltimo ancio deve representar a morte do prprio idioma. 
     Apenas uma centena das lnguas do planeta so gigantes, numa lista encabeada por chins, espanhol, ingls, hindu e rabe. Contados em conjunto, esses cinco idiomas so falados por 2,5 bilhes de pessoas. Algumas outras dezenas so igualmente grandes (incluindo o portugus, a sexta maior), mas a grande maioria dos idiomas so nanicos - alvos fceis para os gigantes. 
     A morte de lnguas  normal: ningum mais no Egito escreve usando os hierglifos das tumbas faranicas. Mas a rapidez com que essas mortes vm acontecendo em tempos recentes  preocupante: enquanto, entre todas as lnguas conhecidas, 630 desapareceram no decorrer da histria da humanidade, cerca de 140 deixaram de existir nas ltimas quatro dcadas. A velocidade  tanta que especialistas chamam o fenmeno de "extines lingusticas". Mas qual o prejuzo quando elas morrem? 

 RUIM PARA O MUNDO 
     "Pode no ser imediato, mas o sumio de lnguas representa um nivelamento cultural", explica Nicholas Ostler, linguista britnico e autor de Empires of the Word ("Imprios da Palavra", sem edio no Brasil). Assim, somem idiomas nicos (como o silbo, das Ilhas Canrias cujas palavras so assoviadas), alfabetos gigantes (como do ubykh, falado na Turquia e hoje extinto, que possua 84 consoantes e duas vogais) e sistemas complexos (como os verbos da lngua archi, da Rssia, que podem ser conjugados em 1,5 milho de formas diferentes). Desaparecem msicas, ditados e piadas, que dependem das particularidades de cada lngua para existir. Tambm morrem mitologias inteiras, enfraquecidas em povos que muitas vezes dependem da transmisso oral. "Essas narrativas at poderiam ser traduzidas, mas tradues no carregariam a funo social original dessas histrias", diz Ostler. 
     Alm disso, perdemos palavras que funcionam como ferramentas de sobrevivncia. Para entender, basta lembrar a palavra "pelada", que usamos para definir "partida amadora de futebol jogada entre amigos em um campo improvisado". Do mesmo jeito, pessoas ao redor do mundo criam apelidos para resumir conceitos complexos. Os tofas, por exemplo, vivem cercados de renas h sculos e dependem delas para se movimentar, alimentar e vestir. So to importantes que inventaram uma srie de palavras para descrever os bichos. Como dngr, que significa "rena macho domesticada com 2 ou 3 anos na primeira temporada de acasalamento" ou chary, "macho de cinco anos, castrado e montvel". Esses termos facilitam a comunicao dos tofas na hora de pastorear as renas. "Permitem aos pastores destacar um animal no rebanho por meio de uma 'etiqueta' nica, que representa uma combinao de suas caractersticas", explica Harrison. 
     Mas geraes mais novas da tribo no aprendem mais esses termos e, por isso, precisam repetir frases enormes em russo quando querem descrever algum animal. Segundo Harrison, esto perdendo a eficincia do tofalar em resumir informaes. "Essas palavras so adaptaes nicas ao ambiente. Tomadas em conjunto no decorrer da histria, elas ajudaram a humanidade a sobreviver." 
     Lnguas tambm guardam os segredos de remdios desconhecidos para a medicina tradicional. Os kallawayas, membros de uma comunidade tradicional da Bolvia, possuem uma tradio mdica centenria. Com repetidos testes de plantas em pacientes nas andanas pelas montanhas dos Andes, eles construram uma farmcia composta por 980 plantas. Espcies que permitiram a produo de remdios para doenas como herpes, leishmaniose e malria. 
     Acontece que muitas informaes sobre essas plantas so transmitidas numa lngua secreta, transmitida apenas para membros da comunidade. Como os jovens pararam de aprender o idioma, informaes sobre muitos desses remdios botnicos podem desaparecer. Segundo o Ethnologue, o maior catlogo de lnguas do planeta, o kallawaya est dormente - categoria de outros 2,5 mil idiomas do mundo. Caso ningum aparea para tentar reverter esse esquecimento, o prximo passo  a extino. 

LNGUAS-ZUMBI 
     So raros os casos de lnguas que voltaram dos mortos. "Existe apenas uma revitalizada com sucesso", diz Hinton.  o hebraico. Falado na regio da Palestina e usado para escrever os livros mais antigos da Bblia, o hebraico passou a aparecer apenas em livros e rezas. Voltou a ser falado pelo povo apenas no sculo 19, ainda que bem diferente do original, na regio que viraria o Estado de Israel. "O hebraico  o nico caso de lngua que renasceu e possui falantes que usam apenas essa lngua, sem ameaas de nenhum idioma maior", diz Hinton. 
     O hebraico  hoje lngua nativa de milhes de israelenses, diferentemente de outras lnguas ressuscitadas, como o maori, falado na Nova Zelndia, o crnico, da regio britnica da Cornualha, ou o havaiano. Isso porque essas trs lnguas tambm voltaram depois de um perodo de hibernao, mas ainda disputam espao (e costumam sair perdendo) com os idiomas oficiais desses lugares (em todos os casos, o ingls). O hebraico, no. 
     Muitos desses lugares possuem um nmero pequeno de idiomas minoritrios. A situao em pases com muitas lnguas  mais complicada. "A diversidade cria um obstculo para a revitalizao", diz Hinton. "Enquanto a Nova Zelndia pode focar apenas no maori, pases maiores precisam dividir recursos entre inmeras lnguas." Como nas pequenas ilhas de Papua Nova Guin e Indonsia e nas gigantes Nigria e ndia, hspedes de 35% dos idiomas do mundo. Imagine decidir quais recebem verba para construir escolas, treinar professores ou produzir apostilas e dicionrios. 
     O Brasil aparece na 12 posio em nmero de idiomas, ainda alto no ranking, com 229 lnguas. Nessa conta, 13 foram trazidas por imigrantes, incluindo japons, espanhol e rabe, mas tambm verses nacionais de dialetos europeus. No sul do Pas,  possvel ouvir um descendente de italiano chamando chimarro de "simaron", no dialeto talian, ou uma criana sendo chamada de "gurien", a verso de "guri" (que vem do tupi) num dialeto alemo. Mas a grande maioria das nossas lnguas  falada por uma pequena minoria do Brasil. So 216 idiomas indgenas, segundo o Ethnologue, ou 274, segundo o Censo. 
     A histria das lnguas indgenas no Brasil  a histria da devastao cultural causada pela colonizao portuguesa. 1,3 mil lnguas eram faladas antes da chegada dos portugueses. Nos primeiros sculos de colonizao, nativos e europeus ainda utilizavam o tupinamb para conversar (e que sobrevive em palavras como jacar e Ipiranga). Mas a maioria das lnguas indgenas foram mortas junto dos ndios, principalmente nas regies prximas ao oceano. 
     Algumas delas eram to complexas quanto as europeias que chegariam mais tarde. Os xets, do Paran, por exemplo, possuem quatro verbos diferentes para "comer", que variam dependendo da comida: "pawwa" (comer carne de tamandu), "jurri" (comer carne de animal violento, como ona ou cobra), "pkai" (comer carne de peixes ou animais que vivem prximos de gua) e "u" (que vale para todo o resto, de larvas a macacos). 
     Tambm so preciosas do ponto de vista da gramtica: o Brasil abriga o jeito mais estranho do mundo de organizar frases. Para entender, lembre que empregamos a ordem sujeito-verbo-objeto em portugus. Lnguas como o xavante ou o caiabi, por exemplo,  utilizam a ordem objeto-sujeito-verbo. Ou seja, a frase "Gato persegue rato" vira "Rato gato persegue". Essa quebra de uma propriedade que se pensava universal ajuda a melhorar o entendimento de cientistas sobre como o crebro produz e processa linguagem. "No fosse por essas lnguas, cientistas poderiam nem suspeitar que idiomas assim fossem possveis. Especulariam, falsamente, que essas ordenaes no seriam nem entendidas pelo crebro humano", escreve Harrison. 
     Mas, dos 216 idiomas contados pelo Ethnologue, 57 pararam de ser transmitidos entre geraes, 99 so falados apenas por ancies e esto morrendo, enquanto 22 foram extintos nas ltimas dcadas e so irrecuperveis. Em resumo, mais da metade dos idiomas falados no Brasil morreram ou esto prestes a silenciar. 

E A LENDA TOFA? 
     Hoje sabemos como o mundo dos tofas surgiu graas a registros antigos da histria. Envolvia um pato que voava pelo Universo. A casca de um ovo colocado por ele deu origem  Terra, enquanto a gema deu origem a um lago. "Todas as narrativas mticas so tentativas de entender o Universo", escreve Harrison. "Sem o mito de criao dos tofas, um pedao desse entendimento est faltando." 

TOFA
Esses nmades siberianos dependem de renas para sobreviver e, assim, criaram palavras muito especficas para chamar cada tipo de animal, como chary, por exemplo, que define "rena macho de 5 anos, castrada e montvel". Hoje, alm de terem esquecido lendas e mitologias, os tofa usam imensas frases em russo para chamar os animais.

KALLAWAYAS
Incrustados no alto dos Andes, os Kallawayas catalogaram uma imensa farmcia de 980 plantas nativas, que tratavam de malria a herpes. Mas os jovens da tribo no aprendem mais o idioma dos seus antepassados - e o conhecimento mdico est morrendo.

HEBRAICO - Por milnios, o hebraico sobreviveu apenas em livros e escritos - at ser ressuscitado no sculo 19.  o nico caso de idioma-zumbi, que voltou dos mortos e que tem falantes que usam apenas ela para se comunicar. 

DIGA ADEUS
Milhares de lnguas devem sumir este sculo, algumas com caractersticas nicas. 

Tuyuca
Pas: Colmbia
Nvel: Ameaada
Em portugus, adicionamos -o e -a para substantivos masculinos e femininos. Em tuyuca, gneros so mais especficos. H terminaes especiais para objetos esfricos (-pro) e flexveis (-ro), por exemplo. 

Pawnee
Pas: Estados Unidos 
Nvel: Quase extinta 
Falado por apenas dez ndios em Oklahoma, possui apenas oito vogais e nove consoantes - mas produz palavras gigantes. H algumas com at 30 slabas por l ("paraleleppedo" tem sete). 

Apurin
Pas: Brasil
Nvel: Ameaada 
No mundo, o jeito mais comum de escrever uma frase  na ordem sujeito-objeto-verbo ("Joo gripe pegou"), popular na sia. Ns usamos sujeito-verbo-objeto ("Joo pegou gripe"). Por muito tempo, linguistas pensavam que isso no variava muito, mas existem lnguas que respeitam ordens nicas, como a apurin, na Amaznia. Ela usa objeto-sujeito-verbo ou seja, "Gripe Joo pegou". 

Yupik
Pas: Rssia e Turquia 
Nvel: Quase extinta 
O alemo tem palavras grandes porque junta morfemas (os menores elementos que possuem significado numa palavra. como re- e "-o") para criar palavras com significados bem especficos. Lnguas assim so chamadas de aglutinativas. O yupik naukan, que possui 60 falantes na Rssia, prximo do Alasca,  um caso extremo. Suas palavras so to longas e carregadas de significados que parecem com frases: "tuntussuqatarniksaitengqiegguq" por exemplo, significa "ele que no havia dito de novo que iria caar renas". 


4#7 APRESENTADO POR HBO  HIPNOSE AO ALCANCE DE TODOS
A tcnica ainda  assunto nebuloso, mas j deixou de ser atrao de circo e programa de auditrio: agora  utilizada para salvar vidas e solucionar crimes.

     At uns 20 e poucos anos, quando pensvamos em hipnose a imagem que nos vinha  cabea era a de um coitado imitando uma galinha, comendo cebola como se fosse ma ou fazendo confisses constrangedoras para deleite de uma plateia de auditrio. O tom bizarro que impregnava o assunto est quase no passado. A tcnica agora  oferecida em spas de Los Angeles e usada em salas de cirurgia e delegacias de polcia. Est atingindo um pblico diversificado, interessado at em auto-hipnose na sala de casa. 
     Essa mudana  recente: foi a partir do fim dos anos 1990 que exames de tomografia computadorizada comprovaram que o processo no se trata de truque de circo. Gente comum passou a descobrir a utilidade e a acessibilidade da tcnica, que nada tem de assustadora ou engraada. Parte da culpa dessa fama de pouca seriedade vem desde que a prtica surgiu, pelas mos do alemo Franz Mesmer, um sujeito esquisito que se vestia de roxo e dizia ter inventado uma varinha de condo de verdade.  
     Para comeo de conversa: hipnose  um estado da mente que se instala de forma natural. Sempre que deixamos de prestar ateno aos muitos estmulos ao redor e focamos em um nico ponto, estamos hipnotizados, em algum grau. Se no fosse assim, ningum se assustaria com filmes de terror. O que os mdicos fazem  estimular estados mais profundos e controlados, com objetivos claros. "No  hipnotizvel quem no consegue fixar a ateno: manacos, deprimidos graves, pessoas com retardo mental moderado ou sob o efeito de drogas psicoestimulantes", resume o psiquiatra Fernando Portela Cmara, professor da Universidade Federal Fluminense. 
     A tcnica ainda  cercada de mitos enganosos. Se voc continua com a cebola na cabea,  hora de se atualizar. 
     
CONTRA O CRIME
     A POLCIA DE PONTA GROSSA, interior do Paran, tinha timas testemunhas para um atropelamento com vtimas fatais. Dois adolescentes que tinham sido atingidos sobreviveram, mas no se lembravam bem do que havia acontecido. Com base em depoimentos de gente que viu o caso de longe, a polcia acreditava que o veculo do criminoso era um mega bord. Mas ningum tinha notcia de um carro desse modelo e dessa cor. At que os dois adolescentes aceitaram se submeter  hipnose. Com a ajuda do terapeuta, resgataram memrias do caso e garantiram: o mega era azul. A informao foi crucial para que os policiais encontrassem o carro, abandonado em um barraco, e chegassem ao motorista culpado. 
     Desde que foi fundado, em 1983, o Laboratrio de Hipnose Forense do Instituto de Criminalstica do Estado do Paran resolveu mais de 800 casos desse gnero. Normalmente, a tcnica serve para que as vtimas se lembrem de detalhes cruciais, que servem de ponto de partida para os agentes fazerem seu trabalho. Pode ser o rosto do criminoso, a cor da roupa que ele usava, uma placa de carro, uma placa de rua ou o logotipo de uma empresa dos arredores.  
     Mas o relato de uma pessoa hipnotizada, sozinho, no tem valor judicial. Acontece que o processo de resgate da memria no  totalmente preciso e um terapeuta pode implantar lembranas que no existem -  exatamente o que ele faz, por exemplo, para induzir uma averso a cigarro ou lidar com uma pessoa que tem fobia de falar em pblico. Ainda assim, muitas vezes a cor exata de um carro  o suficiente para desvendar um atropelamento, desde que os investigadores confirmem a pista. 
     "Utilizo a hipnose somente em vtimas ou testemunhas de crimes, em especial assalto, sequestro, homicdios, estupros e acidentes de trnsito, com a condio de a pessoa estar com um bloqueio de memria", diz o psiquiatra Rui Fernando Cruz Sampaio, fundador e chefe do laboratrio. Um garoto de 22 anos, por exemplo, conseguiu encontrar sua famlia depois que foi sequestrado quando tinha 8 anos. Ele era conhecido como Michael porque era f de Michael Jackson, vivia no Paran e no fazia a menor ideia de quem era ou de onde vinha. Hipnotizado, citou a cidade de Esplanada, na Bahia. Com base nessas informaes, a polcia chegou  famlia que tinha perdido o garoto 14 anos antes.  
     Em um caso especfico, um crime acabou sendo solucionado.  porque uma vtima acabou se mostrando a criminosa - era uma me, que aceitou ser hipnotizada para investigar no caso de um beb de 40 dias encontrado morto na regio metropolitana da capital paranaense. Confirmou-se depois que ela  que havia assassinado a prpria filha. 
     Normalmente, seja em Curitiba, Boston, Londres, seja em Moscou, a hipnose s acontece a pedido do delegado, com consentimento da vtima, numa sesso liderada por um terapeuta e acompanhada pelo menor nmero possvel de pessoas, de preferncia apenas um especialista em retratos falados, e s quando necessrio. Quando a vtima  menor de idade, os responsveis autorizam a prtica e acompanham em uma sala ao lado, mas no no mesmo ambiente para no atrapalhar o procedimento. 
     "Dispomos de mais de mil tcnicas de induo. Dependendo do perfil psicolgico da vtima ou testemunha, fao a opo pela que julgo mais adequada", diz Sampaio. Em geral, as sesses duram uma hora, mas em casos de crimes especialmente violentos podem chegar a trs. Em Curitiba, a cidade que lidera no Brasil o uso de hipnose para ajudar nas investigaes, o laboratrio atende a sete casos por semana. Em quase todos, fornece algum tipo de informao crucial para a polcia. 

A FAVOR DA SADE
     VTIMA DE UM TIPO SRIO de artrite, o ingls Alex Lenkei chegou ao centro cirrgico para uma operao de retirada da base de seu dedo polegar. Hipnoterapista profissional, Alex ficou em transe ao longo dos 83 minutos do procedimento. Sentiu que estavam cortando sua carne, ouviu o barulho do osso sendo quebrado, mas no se apavorou nem reagiu nenhuma vez sequer. Ele ainda se submeteu a outras cinco cirurgias. Em uma delas, seu tornozelo foi cortado com uma serra. E ele no precisou de anestesia em nenhuma das vezes. 
     Esse caso no  to raro assim nem to indito. Desde o sculo 19, cirurgias e amputaes so realizadas usando hipnose no lugar de anestsicos. Durante a Primeira e a Segunda Guerras, na falta de medicamentos, os mdicos que conheciam a tcnica a usavam com frequncia. Bem mais  recentemente, a belga Christel Place se submeteu a uma retirada de tireide enquanto imaginava a si mesma esquiando nos Alpes franceses. O procedimento, que geralmente precisa de anestesia geral com todos os muitos riscos implicados, exigiu somente uma breve sedao no local. (Os belgas, alis, pesquisaram casos assim e perceberam que mulheres que retiram tumores de mamas usando hipnose no lugar de anestesia tm menos chance de metstases.) 
     O alcance na medicina passa por casos extremos como esses, mas vai muito alm. A tcnica  extremamente til em trs linhas diferentes: serve para aliviar dor, para alterar comportamentos indesejveis e para lidar com doenas psicossomticas. Vamos continuar tratando do primeiro caso. 
     Na Inglaterra, um programa piloto com mulheres grvidas est se expandindo rapidamente e j chegou a quase mil mes, que participaram de duas sesses, de 90 minutos cada uma, seis semanas antes do parto. O objetivo  ensin-las a praticar auto-hipnose, aplicada durante o trabalho de parto. Em geral, as mes que participaram do processo e do  luz com parto normal pedem a anestesia peridural com menos frequncia. 
     O uso em consultrios odontolgicos  bem mais disseminado e j se tornou uma rea especfica de atuao, chamada hipnodontia: o especialista fica dentro do consultrio e estimula o estado de transe durante os procedimentos mais dolorosos. O Conselho Federal de Odontologia aceita e recomenda a prtica, com a exigncia de que cirurgies-dentistas faam um curso de 180 horas para poder eles mesmos aplicar a terapia. 
     Mais recente  o apoio para pacientes hipnotizados depois de tratamentos de rdio e quimioterapia. Realizar as sesses sob o efeito do transe diminui a sensao de nusea e a falta de apetite. O Conselho  Paulista de Medicina aprova o uso nesses casos e o Hospital das Clnicas de So Paulo usa a tcnica em seus pacientes de cncer. 
     A hipnose no tira a dor. Em seu estado mais sugestionvel, a pessoa  convencida a substitu-la por uma sensao de calor ou de formigamento, algo mais controlvel e tolervel. E por isso desde 2010 o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional aceita a terapia como tratamento auxiliar para alguns problemas musculares e de coluna. 
     Sobre as mudanas de comportamento, essa terapia tem um trunfo gigantesco: ela ajuda a mexer com a memria. Pode atenuar um episdio especialmente traumtico do passado ou atuar contra depresso, fobias e insnia. Por isso, vcio em jogo, lcool ou cigarros pode ser trabalhado por um hipnoterapeuta que crie ou reforce vnculos negativos relacionados  atividade. O mesmo vale para pessoas que tm anorexia ou bulimia, e mesmo para alguns casos de impotncia. 
     As doenas psicossomticas so tratveis assim porque a terapia mexe com o aspecto psicolgico delas. Por isso a terapia reduz a incidncia de asma, clon irritvel e problemas de pele e ataca a psorase e o vitiligo. 
     No  exagero creditar tantos benefcios para a hipnose. A tcnica provoca um efeito poderoso sobre o crebro: com a ateno totalmente focada, a pessoa evita que os estmulos externos alcancem o crtex superior, a regio responsvel pela percepo da dor. 
     O tratamento ainda diminui os nveis de serotonina, o transmissor ligado s sensaes de bem-estar, e estimula a produo de molculas chamadas moduladores imunolgicos, que se ligam s clulas de defesa e evitam que elas ataquem tecidos do prprio corpo. Tudo muito mais impressionante do que os shows de mgica dos programas de auditrio de TV. 

FAA VOC MESMO
      TOTALMENTE POSSVEL FAZER hipnose sozinho. J fazemos isso, sem querer, o tempo todo, mas podemos criar transes com objetivos mais claros.  importante, alis, estabelecer metas para cada sesso. "Todo mundo quer chegar em casa depois de um dia difcil e relaxar. Com um pouco de dedicao e disciplina,  possvel transformar esse momento em uma oportunidade de melhorar a prpria sade fsica e mental", diz o psiquiatra David Spiegel, da Universidade Stanford. 
     Para alcanar o estado de hipnose,  preciso seguir alguns passos simples. Em primeiro lugar, crie um ambiente relaxado. Vista um moletom, desligue o celular, prefira luz baixa e indireta, procure evitar rudos e estmulos - a no ser que voc tenha em mos alguma msica bem new age ou sons da natureza e gravaes de mantras. Se morar com algum, pea para no ser incomodado por pelo menos meia hora. Sente-se em algum lugar agradvel e evite cruzar pernas ou braos. Encontre a posio mais confortvel possvel para ficar assim  por bastante tempo sem se incomodar. Procure um ponto na parede e comece a olhar fixamente para ele. 
     Pode ser um quadro, uma mancha, um interruptor. Se voc no consegue ficar muito tempo concentrado num nico ponto, mude de estratgia e concentre sua ateno em algo que se mova de forma cclica - um relgio cuco, um pndulo, um metrnomo ou at mesmo aqueles gifs hipnticos da internet. Se usar um relgio, foque a ateno em um dos nmeros. Voc vai perceber que os outros vo comear a ficar borrados. 
     Enquanto fixa o olhar, respire. Devagar. Pense nos movimentos de puxar e expelir o ar. Esquea-se dos problemas, do trnsito, da briga com a namorada, do preo da picanha. Respire. De novo. E mais uma vez. Com muita calma. Imagine um lugar tranquilo, uma ilha deserta, uma montanha. Deixe sua imaginao fluir. Se algum pensamento negativo aparecer, analise-o com calma e dispense-o devagar, sem mgoas nem ressentimentos. 
     Balance o corpo, para l e para c, como se estivesse num barco ou caminhando lentamente. Se voc gosta de conversar sozinho, no se contenha. Mas fale baixo e em tom montono e repetitivo - os psiclogos esto descobrindo que os estmulos sonoros so to ou mais importantes do que os visuais. 
     Uma boa forma de agilizar o processo  pensar em cada um dos membros do corpo como se eles tivessem vida prpria e comeassem a adormecer lentamente, por partes. Sinta o brao direito ficar amortecido. Depois o esquerdo. Depois o p, a panturrilha, a nuca, o rosto, as plpebras. Sinta a tenso deixando voc, at perceber.  
     Quando voc menos perceber, j vai estar hipnotizado. Se pensar demais nisso, vai acabar com o prprio transe. Deixe-se levar, mantendo a respirao sob controle.  a hora de tratar de seus objetivos. Aproveite para mentalizar alguns comandos simples para voc mesmo, como "No vou mais me irritar no trnsito", "Vou reduzir o nmero de cigarros que eu fumo por dia", "Vou comer menos doces". Tudo muito positivo, relacionando esses comandos com sensaes positivas e saudveis. 
     Depois de algum tempo, voc vai comear a voltar ao estado natural. Induza esse estado repetindo para si mesmo: "Estou relaxado, descansado, calmo, tranquilo. Agora vou retornar s minhas atividades normais, com uma nova disposio". Imagine-se saindo de uma piscina quente, degrau aps degrau. Sinta o vento batendo no rosto. 
     Ao final do processo, voc vai estar se sentindo muito melhor. Talvez com uma leve sonolncia nos primeiros minutos, como se tivesse acabado de acordar, mas logo depois vai estar novo em folha. Se transformar esse relaxamento em rotina, vai comear a ver resultados - como o piloto Andr Borschberg, da companhia Solar Impulse, que fez da tcnica uma maneira de no ter sono durante o longo voo que ele est para realizar entre a China e o Hava no comando de uma aeronave inteiramente movida a energia solar. 
     "A hipnose no tem relao direta com a meditao aos moldes orientais, mas seus resultados so parecidos", diz David Spiegel. "Ajuda a pessoa a encontrar o to falado equilbrio entre corpo e mente." 

NOMES MEMORVEIS 
A breve e movimentada trajetria da arte de induzir transes.
980-1037 AVICENA  O mdico rabe do sculo II j defendia a ideia de que a fora de vontade tinha influncia na sade do corpo.
1734-1815 FRANZ MESMER -  Morreu com fama de charlato, no sculo 19, mas foi pioneiro na divulgao da prtica.
1795-1860 JAMES BRAID  Em 1843, o escocs atualizou a teoria de Mesmer e a batizou em homenagem ao deus do sono, Hypnos.
1800-1859 JAMES ESDAILE  Na dcada de 1840, o escocs realizava cirurgias usando o sono mesmrico, mais eficaz do que a anestesia.
1856-1939 SIGMUND FREUD  Foi usurio da tcnica, at troc-la pela livre associao de ideias da psicanlise.
1900-1967 DAVE ELMAN  Comediante americano, lanou em 1964 um livro que ensinava a hipnose em trs minutos e hoje  usado na medicina.
1901-1980 MILTON ERICKSON  Nos anos 1960, o americano marcado pela poliomielite deu mais liberdade aos pacientes e criou a hipnose moderna.
1942 HENRY SZECHTMAN  Junto com Pierre Rabville, foi quem provou que o processo funcionava, com um estudo realizado em 1997.

JEITOS DIFERENTES
Alguns precisam de empurro.
FIXAO - A maneira mais conhecida de provocar hipnose  fazer com que o paciente olhe diretamente para um nico ponto por pelo menos 30 segundos. Tambm pode ser usado algum objeto em movimento constante, como o famoso pndulo. 
NARRATIVA -   o jeito mais usado nos consultrios mdicos. O psiclogo induz o transe fazendo o paciente relaxar, uma parte do corpo de cada vez. Ele conversa devagar, encaixando as palavras num fluxo cadenciado, e vai criando uma histria. 
CONFUSO  Bem menos gradativo, esse mtodo tira a pessoa de seu ponto de equilbrio para surpreender os sentidos. Pode ser um aperto de mo que se transforma em uma massagem nos dedos, ou um leve empurro, ou a ttica de fazer perguntas e interromper o paciente quando ele tenta responder.
DESEQUILBRIO - Parecida com a estratgia da confuso, s que mais fsica.  A pessoa  colocada para sentar em uma cadeira desconfortvel, ou deve ficar sobre um p s ou com um brao levantado. O importante  criar um desconforto que faa com que o candidato  hipnose se canse e baixe a guarda.
CHOQUE   o desequilbrio levado  beira da agresso. A conversa comea amena, como se o psiclogo fosse usar o mtodo da narrao. Do nada, ele comea a gritar com a pessoa, joga a cabea dela para trs ou  derruba da cadeira.

APENAS LENDAS...
Ideias muito repetidas e erradas.
* SONO PROFUNDO  Desde a dcada de 1930, sabe-se que o estado de hipnose no tem nada a ver com o sono.
* VIDAS PASSADAS - A cincia no aceita a reencarnao nem o uso da hipnose para visitar outras vidas.
 CURAS E MILAGRES - A ideia de que igrejas usam hipnose para manipular  estapafrdia: durante o transe, as pessoas mantm o senso crtico.
 MENSAGEM SUBLIMINAR  No existe comercial de TV que faa a pessoa ficar hipnotizada e correr para comprar um refrigerante.
 CRIME SEM QUERER - O hipnotizador no pode forar o paciente a cometer assassinato.
 BICHOS  No adianta balanar um relgio na frente de seu cachorro: eles no podem entrar em transe.

...E ILUSES
A hipnose ainda  espetculo.
A psicologia se apossou da hipnose em definitivo. Mas isso no significa que alguns mgicos e ilusionistas ainda no simulem seus efeitos. Veja o caso de Derren Brown: em 2012, em Londres, ele instalou um fliperama que provocaria transe. A vtima atirava em zumbis at entrar em estado catatnico e acordar num galpo cheio de atores imitando... zumbis! Tudo falso,  claro. Mas bem divertido - alm de muito polmico: o suposto poder hipntico de Derren rende discusses acaloradas nas redes sociais. 

TESTE SEU NVEL DE TRANSE
Voc daria trabalho ao terapeuta?
QUANTO TEMPO VOC CONSEGUE FICAR SEM ABRIR OS OLHOS?
(a) Quanto tempo for necessrio!
(b) At alguns minutos, sem problema.
 Alguns segundos, se voc me explicar muito bem os motivos.
(d) Fechar os olhos? Por qu? Quem  voc?

QUAL SUA REAO AO ASSISTIR A UM FILME?
(a) Mergulha na histria, sofre junto com a mocinha e chora no final.
(b) Presta mais ateno na fotografia e nos cenrios.
(c) Tenta ser crtico, mas acaba curtindo a histria.
(d) Procura defeito nos dilogos, nos personagens e no roteiro.

SE ALGUM DIZ A VOC QUE EST SE SENTINDO MUITO TRISTE...
(a) Voc comea se sentir igualzinho, mesmo que estivesse feliz antes.
(b) Voc fica abalado, sem muito a dizer.
(c) Voc escuta com educao e tenta dar dicas para ajudar.
(d) Voc mal escuta a pessoa e arranja uma desculpa para se afastar.

RESULTADO
Quanto mais opes (a) marcadas, mais fcil de hipnotizar voc . J as alternativas (d) seguem na direo contrria: voc resiste ao mximo que pode. J (b) e (c) esto no meio caminho.

SAIBA MAIS
Livros para pesquisar Essentials of Hypnosis, Michael D. Yapko, Routiedge, 2014
Razes Profundas, William O'Hanlon e Michael Martin, Psy, 1995
Filmes para se distrair O Escorpio de Jade, dir. Woody Allen, 2001
Corao de Cristal, dir. Werner Herzog, 1976
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5# ORCULO agosto 2015

O SENHOR DE TODAS AS RESPOSTAS
EDIO TIAGO JOKURA

Essa j me fez coar muito a cabea. Chifres so ornamentos to bonitos no reino animal... nunca entendi o que tm a ver com adultrio. Indo direto ao ponto: POR QUE CHAMAMOS DE CORNO AQUELE QUE  TRADO?  Marcelo Jeronimo, Rio Grande, RS
Fique tranquilo, voc no ser o ltimo a saber. H trs explicaes: no incio do sculo 17, as leis espanholas castigavam a traio da mulher com a morte dela e do amante, cujo assassinato era praticado pelo marido trado.  Se ele no matasse os dois, perdia a dignidade e precisava andar em pblico com um chapu ornamentado com um par de cornos grandes.  Segunda explicao  que outros povos europeus colocavam um par de cornos na porta de entrada do homem trado para avis-lo. A terceira hiptese  que, no Brasil, a vaca  associada  mulher devassa. Ou seja, se a mulher adltera  a vaca, o homem trado  o touro, cornudo ou chifrudo. Tudo o que lhe disserem alm disso, Marcelo,  coisa que esto colocando na sua cabea.

18% DAS TRAIES rolam s quartas-feiras, entre 17h e 19h.  o que revela uma pesquisa com 172 mil usurios do site de relacionamentos extraconjugais Ashley Madison.

, destruidor de dvidas no nvel hard: por que nos games existe o clich de derrotar o chefe da fase com trs ataques? - Pedro Souza, Belm, PA 
 UM JEITO de tornar a tarefa desafiadora e  prova de acidentes. Um golpe s  muito simples; dois confirmam que no foi acaso ou sorte; o terceiro  para o combate durar um pouco mais. Mas essa "regra" dos trs ataques  antiga, l dos anos 1980, com os primeiros Mrio Bros., entre outros. Hoje, nem todos os games tm viles no fim das fases. Quando tm, como em God of War,  preciso mais do que trs golpes para venc-lo e prosseguir no jogo.

P PUM
Existem coisas que o dinheiro no compra. Para todas as outras, se eu usar Mastercard, quanto de taxas est embutido em cada transao? - Davi Melo, Rio de Janeiro, RJ 
Cerca de 3,19% no dbito, 4,05% no crdito  vista e 6,99% no crdito parcelado. 

NMERO INCRVEL - 180 milhes  o nmero de CPFs na base de dados da Receita Federal.
OUTRO DADO RELEVANTE SEM NENHUMA LIGAO - 180 MILHES de dlares foram pagos pela tela As Mulheres de Argel, de Pablo Picasso, a mais cara j leiloada.

Como surgiu o CPF? A primeira pessoa que tirou o documento tinha o nmero 000.000.000-1? - Gabriela Vinhota, Ribeiro Preto, SP 
O PRIMEIRO Cadastro de Pessoas Fsicas, o CPF, surgiu em 1968. Ele foi criado para reunir informaes detalhadas sobre as pessoas fsicas, obrigadas a apresentar declarao de rendimentos e bens. E, no, o primeiro no era 000.000.000-1. Cada CPF  feito a partir de duas sries de nmeros que codificam vrios dados da pessoa, como a cidade em que vive. Combinadas, as geram um nmero nico. A lgica usada permite que ele seja verificado como vlido ou no automaticamente, por meio de uma frmula. 

Quer que eu desenhe? Algum povo tem gestos alternativos para dizer sim? - Manoel Gustavo Barbosa Brasiliense, So Vicente do Sul, RS
1- Bulgria e regies de Itlia, Japo, Ir e Grcia  Balanar a cabea
2- Bosqumanos, tribo do sul da frica - Cuspir
3- Filipinas  Erguer sobrancelhas
4- Melansia e outras regies da Oceania  Fechar os olhos e fazer bico

Qual  o personagem de HQ mais velho em ao? Um amigo diz que  o Popeye... - Luan Cenci, Videira, SC
POPEYE  NOVINHO, s 85 anos. Os que esto h mais tempo em tirinhas de jornal so os irmos Hans e Fritz, os Katzenjammer Kids, publicados nos EUA desde dezembro de 1897, ininterruptamente, at hoje - l se vo 117 anos. O autor foi o alemo, naturalizado norte-americano, Rudolph Dirks.
PIONEIROS DA HQ
HANS E FRITZ - Primeira tira com bales de fala para os personagens.
YELLOW KID - Nasceu em 1894, mas s durou quatro anos.
NH QUIM - De 1869, esta HQ brasileira  uma das mais antigas.

Estava arrumando a mala para viajar e coloquei um terno dentro para uma ocasio especial. A me veio a dvida: onde surgiu a gravata? - Yury Teodsio, Joo Pessoa, PB 
SE NO FOSSE to indiscreto de minha parte, comentaria que gostei muito da gravata azul-clara que voc usou na formatura de seu primo Arlan, em Campina Grande, e que originou este contato - me ensina aquele n depois? H quase 300 anos atrs, essa pea de moda masculina surgiu como distintivo militar. Mercenrios da Crocia que fizeram parte do exrcito francs no sculo 17 usavam cachecis de linho e musselina e eram chamados de cravate (croatas). A palavra acabou sendo usada tambm para nomear o acessrio e virou gravata em portugus. A inveno at hoje  motivo de orgulho na Crocia, onde a gravata tem data comemorativa: 18 de outubro. 

Por que, depois de chupar uma bala de menta, ao beber gua, sentimos uma sensao super gelada na boca? - Marco Manoel, Joo Pessoa, PB 
PORQUE a bala tem mentol, um composto qumico que excita os receptores nervosos de temperatura da boca. Imagine que cada receptor  uma fechadura que precisa de uma chave exclusiva para liberar a sensao de temperatura. O mentol se comporta quimicamente como uma chave falsa que faz o receptor indicar mudanas de temperatura mesmo que elas no tenham ocorrido. Ou seja, quando o ar ou a gua entram na boca cheia de mentol, o crebro recebe impulsos nervosos de frio, causando uma ilusria sensao de refrescncia.

No cristianismo, sempre depois de rezar, dizemos "amm!". De onde vem essa palavra e o que significa? - Matheus Raposo de So Paulo, SP 
A EXPRESSO vem do idioma hebraico e deriva da sigla EMNO: El (Deus), Melech (rei) e Neeman (fiel). Literalmente, significa "Deus  um rei fiel". Mas, culturalmente, ganhou ao longo do tempo o significado de "que assim seja", para que os pedidos feitos na orao fiquem nas mos de Deus. Amm! 

Tava morcegando no trabalho, palitando os dentes e veio a curiosidade: quem  a Gina da caixa de palitos? - Joilson Reis, Belo Horizonte, MG 
 A POLONESA Zofia Burk, que estampa a embalagem desde 1976. Na poca, aos 29 anos, fazia vrios comerciais. Este foi seu ltimo trabalho como modelo - j que o rosto ficou muito identificado com a marca de palitos. Chegou a processar a empresa pedindo participao no faturamento, mas desistiu da ao. Hoje, Gina vive em So Paulo e no atua como modelo. Ah, uma curiosidade: alm de estar na boca de muita gente, ela  poliglota. Fala portugus, ingls, espanhol, hebraico, francs, italiano, alemo e idiche. 

 possvel pilotar um carro de F1 no meio de uma cidade? No que eu v comprar um... - nSamuel Batista de Paula, Barra Mansa, RJ P
OR QUE NO DESEMBOLSAR R$ 30 milhes por um sonho? Pilotar  possvel, apesar de ser ilegal - carros de F1 no tm itens de segurana essenciais, como setas, parachoques e faris, e por isso no so licenciados. S no ia dar para andar rpido: as curvas na cidade so fechadas, o asfalto  ondulado demais, os semforos no deixam o carro deslanchar etc. A prpria falta de velocidade superaqueceria o motor, causando panes. 

, incansvel: quem inventou o fim de semana? - Roberta Campos, Campinas, SP 
INCANSVEL NADA! Fim de semana  to sagrado para mim como para judeus e romanos, que folgavam no sbado desde a Antiguidade. O domingo livre  medieval:  o dia da missa catlica, portanto um descanso para todos irem ao culto. Mas um par de dias para relaxar  consequncia de reivindicaes operrias na poca da Revoluo Industrial, no sculo 19.

PERGUNTE AO ORCULO
Escreva para superleitor@abril.com.br com assunto "Orculo" e mencione sua cidade e Estado.


CINCIA MALUCA
Por Carol Castro

ABELHAS IDENTIFICAM DROGAS 
Cientistas treinaram abelhas para detectar substncias ilegais. Ao sentir cheiro de herona, os insetos levavam um choque, aplicado na cmara de acrlico que abrigava o teste. Aprenderam: ao perceber o odor, voavam para longe. A aposta  que elas repitam o comportamento ao notar drogas escondidas por passageiros em aeroportos.

OUVIR HEAVY METAL ACALMA 
PESQUISADORES pediram a 39 fs de rock para contar sobre brigas antigas. Os batimentos cardacos deles subiram e a irritabilidade aumentou. A, metade foi colocada para ouvir msica. Quem ouviu heavy metal, com batidas to nervosas quanto o sentimento deles no momento, se acalmou mais rpido.

BELAS EMBURRECEM HOMENS 
EM UM GAME, 21 homens jogaram com parceiras virtuais. Quando elas eram bonitas e faziam propostas financeiras ruins, eles aceitavam mais. O resultado no  novidade, mas pesquisas sugerem que rostos belos superestimulam reas do crebro que avaliam recompensas, afetando o julgamento. 


LISTA
Quais so as sries de filme com mais continuaes no cinema? 
Fabricio Miranda, diretor de arte da SUPER 
23 filmes: 007  James Bond
12 filmes: Sexta-feira 13
12 filmes: Star Trek
10 filmes: Halloneen
9 filmes: A Hora do Pesadelo
Fonte: IMDB

ESTE MS NESTE PLANETA
DIA 15
 FRANA
- Festa do porco: Trie-sur-Base j foi a maior produtora de sunos francesa. Alm do comrcio, o festival tem competies de quem imita melhor um porco em vrios momentos: do nascimento  morte, passando pelo sexo.
- 7 ANOS  o intervalo que famlias da etnia Merina, em Madagscar, respeitam para desenterrar seus ancestrais. A, trocam seus lenis, tiram fotos e danam com eles antes de devolv-los. At setembro.

DIA 16
 EUA
Semana de Elvis Presley: No aniversrio de morte do rei do rock, covers de Elvis invadem Memphis, Tennessee, e fs participam de eventos na manso Graceland, incluindo caa ao tesouro misturada com quiz.

DIA 20
 CHINA
Dia dos Namorados chins:  No festival Qixi, tambm chamado de Noite das Habilidades, garotas solteiras exibem talentos em tarefas domsticas, como bordado. Tambm oferecem flores, comida e p facial (!) ao lendrio casal Zi Nu e Liu Nang.


O POVO QUER SABER:
A dvida que se destacou no Google este ms

QUAL O MENOR DINOSSAURO?
O MICRORAPTOR, dentre os nanicos,  o que tem maior parte do esqueleto preservada. Este carnvoro viveu h 125 milhes de anos onde hoje fica a China e tinha uns 50 cm de comprimento (entre as pontas do rabo e da cabea) e menos que 4 quilos - tipo um cachorro chihuahua. Na paleontogia, porm,  comum estimar a anatomia de espcies a partir de poucos fragmentos fsseis. Embora isto resulte em concluses imprecisas, d origem a outros candidatos a menor dino: o plumado chins Anchiornis, com cerca de 150 milhes de anos, teria 34 cm e 110 gramas; o tambm chins e plumado Epidexipteryx hui, 25 cm (45 cm contando a cauda) e 164 gramas.

PROVRBIO DO MS
Vidole vitano, kipi boro
Cinco dedos, qual o melhor?
Este ditado em suali, idioma falado no Qunia, na Tanznia e em outros pases da frica, significa que  difcil avaliar quem  mais importante em uma tarefa coletiva.

Por que cruzamos os dedos torcendo para algo acontecer? Cruzo os dedos pela resposta... - Estela Simes, Campo Grande, MS 
PODE DESCRUZAR, QUERIDA. A primeira teoria  a de que, entre povos pagos europeus, duas pessoas formavam uma cruz com os dedos indicadores para invocar bons espritos. Na falta de companhia, o jeito era cruzar o indicador e o dedo mdio da mesma mo. Outra hiptese: Quando os cristos foram perseguidos pelos romanos, entre os sculos 1 e 4, o gesto permitia que se identificassem discretamente. A partir da, o sinal virou um gesto de esperana e de boa sorte, usado at hoje. 

Pergunta curta e grossa: existe teatro porn? - Thiago Bezerra, Salvador, BA 
UI! Se voc fala sobre peas teatrais com sexo explcito, sim: existem desde o Imprio Romano. E, hoje, sexo no palco no rola s em estabelecimentos suspeitos, mas tambm no respeitvel circuito artstico. Um exemplo recente  a pea Apocalipse 1,11, montada pelo grupo paulistano Teatro da Vertigem em 2000. Ambientada em um presdio, apresentava dois atores, vestidos de ndios, que transavam em cena. Mas o foco no era o sexo, e sim mostrar a degradao a que os ndios so submetidos em nossa sociedade. 


CONEXES
De Bruce Willis a Jean Wyllys 
por Fbio Marton

BRUCE WILLIS - O careca brilha em Holywood desde os anos 1980 (quando ainda tinha cabelos), com a srie Duro de Matar e em outros sucessos, como Pulp Fiction e Sin City. Tanto trabalho fez com que ele tivesse que se mudar algumas vezes. Em 2007, foi morar em Nova York, na... 
TRUMP TOWER - Para as filmagens de A Estranha Perfeita, alugou um apartamento na torre por US$ 55 mil mensais. Alm de residncias, o arranha-cu de 68 andares abriga um shopping center, lojas e escritrios. Um deles acabou ficando famoso, no programa... 
O APRENDIZ - O magnata Donald Trump - que construiu a Trump Tower - adora aparecer. Ele j havia feito aparies em filmes antes de maltratar candidatos a emprego em seu reality show. Trump  um exmio empresrio. Esse  um negcio que ele no teria feito sem o precedente do... 
BIG BROTHER - A febre dos reality shows surgiu em 1999, na Holanda, e foi exportada para vrios pases. No Brasil, o BBB chegou em 2002 e est a at hoje. Em sua quinta edio, de 2005, o campeo seria o ento professor universitrio... 
JEAN WYLLYS - No BBB, ganhou R$ 1 milho e projeo nacional. Em 2010, foi eleito deputado federal. A diferena entre ele e o ator no est s nos psilons do nome. Jean  famoso por posturas de esquerda, em defesa das minorias. Bruce leva fama de conservador. 


MANUAL
Por Marcelo Testoni

Desde que Martinho Lutero iniciou a Reforma Protestante, eis uma pergunta que no quer calar: COMO ABRIR UMA IGREJA? - Leo Maino, So Paulo, SP

1- ESCOLHA O LOCAL
Alugar d flexibilidade para a igreja se mudar caso no vingue ou se o nmero de fiis aumentar demais. Galpes e sales desocupados nos centros das cidades so visados por serem de fcil acesso e oferecer mais espao por um preo acessvel. Comprar um imvel s vale a pena se o ponto tiver potencial de valorizao. 

2- PEA A BENO DO ESTADO
Se a igreja faz parte de uma denominao, a sede precisa autorizar a fundao. Se for independente,  s pagar R$ 114,99 para ser registrada e ter seus documentos protocolados em um cartrio de pessoa jurdica. Em dois dias teis, j d para dizer amm.
Papelada:
- Ata de constituio
- Estatuto social
- Lista de assembleia
- RG dos fundadores
- Requerimento para registro

3- CUMPRA A LEI
Igrejas so imunes a impostos sobre patrimnio, renda e servios prestados. A condio legal para isso  que os bens estejam no nome da instituio e que sirvam somente a suas finalidades, como cultos, palestras, shows musicais e outras atividades definidas pela prpria igreja. 

4- CONQUISTE MEMBROS
Para constituir a igreja,  necessrio nomear, no mnimo, dois cargos de diretoria. Em seguida, uma lista de assembleia com o nome dos presentes na fundao e o estatuto social so anexados ao livro de atas (registro dos assuntos tratados nas reunies da igreja), que tambm passa pelo cartrio. 

SANTA CEIA COM ELVIS
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6# MUNDO SUPER agosto 2015

NOSSA REDE SOCIAL

CHEGA DE SILNCIO
Com a publicao da reportagem Como silenciamos o estupro (jul/15), mais de 270 relatos de violncia sexual foram enviados espontaneamente para a redao. Muitas mulheres nunca tinham falado sobre o assunto antes. Quebrar o silncio  o primeiro passo para romper com a cultura do estupro. Compartilhamos aqui, preservando o anonimato, algumas dessas histrias.

s CINCO DA MANH, na sada de uma festa, dois meninos anunciaram um assalto (um deles estava armado). Nos fizeram andar at uma rua onde s havia mato e disseram: "ou vocs fazem sexo ou a gente mata vocs". Fizeram o que quiseram. Depois, tive que esperar a minha amiga, o que foi uma tortura. O pior  que ouvi do meu ex-namorado que meu vestido era curto e que no tomei cuidado! Estuprada aos 14 anos, com uma amiga. 

EU TINHA 8 ANOS QUANDO MEU IRMO me violentou pela primeira vez. Ele me batia e falava que eu pedia por aquilo. Eu era estuprada todos os dias. Uma vez, tentei fazer o mesmo com meu irmo mais novo, um beb. Minha me me flagrou e perguntou se algum fazia aquilo comigo. No tive coragem de contar. Ela desconfiava e mandou meu irmo morar com a minha av. Aos 13, tentei meu primeiro suicdio. No tinha amigos, tinha medo das pessoas. At os 18, era muito agressiva e no conseguia ter um namorado. Estuprada pelo irmo dos 8 aos 10. 

MEU PADRASTO ME MOLESTAVA rotineiramente. Meus pais estavam em disputa judicial pela minha guarda, e ele ameaava me devolver ao meu pai, alcolatra. Meu pai ganhou minha guarda e, anos depois, contei para minha me tudo o que aconteceu. Ela no acreditou. Estuprada aos 6 anos. 

FUI AGREDIDA POR UM FICANTE. Fui  delegacia prestar queixa e o policial disse que a praxe era levar a vtima em casa. No meio do caminho, ele parou o carro, colocou a arma na minha cabea, me obrigou a fazer sexo oral nele e me estuprou. Ele me deixou em casa, sabia onde eu morava. Tive depresso, tentei me matar, nunca consegui contar para ningum. Estuprada aos 20 anos. 

ESTAVA BRINCANDO NA PRAA. Um homem se aproximou com um co da raa chow-chow. Nunca tinha visto o cachorro da lngua azul. Ele perguntou se eu queria pegar no colo. Aceitei, e ele comeou a passar a mo no meio das minhas pernas, usando o animal para ocultar o que fazia. Em pnico, fugi. Passei a usar roupas largas para esconder meu corpo. 

EU E QUATRO AMIGAS FOMOS VTIMAS DE ESTUPRO COLETIVO num terreno baldio. O mais difcil foi fazer o boletim de ocorrncia. Fomos escurraadas pelos policiais na delegacia. 

EU DEVO SER A MAIS AZARADA, aconteceu trs vezes. Na primeira, sofri uma tentativa de estupro de um colega de faculdade e, nas outras, um ex-namorado me violentou. s vezes, no tenho nimo e quero passar o dia dormindo. Sou vaidosa, mas tive que abrir mo da vaidade para no ser alvo. Li que as mulheres que tm mais risco de sofrer isso so as de cabelos longos. Cortei e, at hoje, o comprimento nunca passa dos ombros. 

VOC PODE SER ESTUPRADA PELO SEU PRPRIO MARIDO. Fui casada por seis anos e, vrias vezes, no estava a fim de fazer sexo, mas meu marido queria. s vezes, at bbado. Eu acreditava que devia fazer porque era meu marido. Permitia chorando e sentia raiva por ele me forar contra a minha vontade. Sei quanto cada situao foi difcil e humilhante. A vtima sente como se tivesse culpa de ser mulher. 

MUITAS CRIANAS SOFRERAM ABUSOS POR UM PADRE em minha cidade. Atualmente, ele est em priso domiciliar. Conheo colegas que tiveram que mostrar os rgos genitais para ele apalpar. O argumento dele era:  pecado fazer qualquer coisa com meninas, mas, se voc tiver desejo, o frei te ensina a bater punhetinha. 

MEUS PAIS ERAM EVANGLICOS. Na igreja eram santos, em casa, demnios! No tenho recordao de afeto, amor, ateno. Meu prprio genitor se satisfazia sexualmente com sua filha. Ocorriam diversos atos sexuais, o que me faz querer vomitar s com a lembrana. Por onde eu fui, era como se eu tivesse escrito na testa: j fui molestada, podem me molestar, e assim se seguiu... Na escola, queria ser chamada de Christiane F. Quando minha genitora morreu, suas ltimas palavras foram: voc vai pagar por tudo que me fez. Estuprada desde os 7 anos. 

TIVE UM NAMORADO QUE NO TINHA LIMITES. Ele me passou herpes. Eu estava com as partes ntimas cheias de bolhas e feridas. Mas ele me pegava  fora e transava comigo mesmo assim, estourando todas as bolhas. Eu chorava, implorava, mas ele no parava. Hoje, tenho 31 anos e no consigo me relacionar direito com ningum. Tomo medicamentos para dormir. Todos os namorados que tive transavam comigo enquanto eu dormia, porque eu no acordava, dopada de remdios. Estuprada pela primeira vez aos 12, pelo padrasto. 


SOLIDARIEDADE NAS REDES...
Leitores demonstram apoio s mulheres no post 104 histrias de leitores que sofreram abuso sexual e/ou estupro. abr.ai/1/8ZeHU 

O pior de tudo  ver que, quando elas procuraram ajuda, as pessoas as culparam pelo crime, e elas tiveram que conviver com esse trauma sem poder contar com ningum! - Nathlia Virgnya 

Com esses relatos no tem como no ficar abalada. Mulheres, vocs que precisarem de ajuda, contem comigo. Sei que, s vezes, o que precisamos  de algum para nos ouvir. - Ana Mercedes 

Gente, eu no consigo ler tudo isso... Li alguns primeiros e estou sofrendo junto. SUPER, vocs so demais por dar voz e essas mulheres! O pas precisa saber disso, precisa acabar com essa impunidade. - Carol Martins 

O mais triste  ver a prpria famlia contra as vtimas. Elas so julgadas pelos familiares e tratadas com descaso pelas autoridades. - Kamila Pastore 

Poucas coisas me fazem chorar, mas esses depoimentos cortaram meu corao. Espero que sirvam de exemplo para outras vtimas e que elas denunciem, s assim o pesadelo acaba. - Camila Praxedes 

Eu no entendo como pode haver tantos homens capazes de praticar essas atrocidades. O estupro  o pice da cultura machista. Creio que, enquanto houver machismo, haver estupro. Ser um longo caminho at acabarmos com essa tristeza, mas veculos como a SUPER publicarem isso j  uma ajuda. Se voc foi vtima de estupro, no se cale! Procure ajuda e denuncie! - Rmulo Vilela 

Entendo e respeito as vtimas que optaram por esconder esses abusos. Mas, infelizmente, esse silncio agrava a situao, pois no temos noo do quo comum . Reportagens como essa ajudam. Toro para que as vtimas se recuperem. - Marcelo Pereira 


...E MOBILIZAO PELA CAUSA
A campanha que fizemos contra a cultura do estupro nas redes sociais alcanou milhes de pessoas. Confira os nmeros da repercusso": 
26 milhes de timelines alcanadas
Facebook

174 mil compartilhamentos
Fecebook

240 publicaes com a hashtag #chegadesilncio 
Instagram


BATOM VERMELHO NO  UM CONVITE 
Nem minissaia, nem decote, nem qualquer roupa que a mulher escolha usar. E as mulheres protestaram pela liberdade de vestir o que quiser usando a hashtag #chegadesilncio no Instagram. Tudo comeou com @giihvaaz, que publicou uma selfie com a frase: "Isso  um estilo e no um convite #chegadesilncio".

@LIGIAOLIVEIRA Aplaudindo de p! Parabns, @revistasuper por abordar o assunto! Eu sou mulher e no mereo viver com medo da cultura do estupro! 

@JAQUEBUCHNER J passou da hora de pararmos com esses preconceitos arcaicos e sem cabimento. A culpa no  da vtima, nunca. A sociedade precisa punir os verdadeiros criminosos. 

@DESSALENZ Chega de falsos moralistas, o que julga pela cor do batom  o mesmo que espanca a mulher em casa! Chega de silenciar o crime mais praticado, inclusive entre as mulheres: no precisa estuprar para apoiar o estupro, basta uma frase, um comentrio, um julgamento. 

@ME.BELISCA Nossa sociedade possui estigmas muito preconceituosos. Merecemos respeito, independentemente da cor do batom, comprimento da saia e profundidade do decote. Ousada ou recatada, consumindo lcool ou no, danando de forma provocante ou observando... S ns temos direito sobre os nossos corpos. Nenhuma mulher est "pedindo" para ser estuprada. 

@MIRELLA_FLOREN PRECISAMOS falar sobre estupro. Parabns, @revistasuper. No d mais para banalizar essa realidade que faz mulheres serem vtimas a cada quatro minutos no Brasil. Chega! No  nossa culpa. No merecemos ser estupradas. 

@JOYCEDEPAULA10 Uma coisa que nunca sai de moda: RESPEITO  MULHER.  inaceitvel julgar uma mulher pelo tamanho da sua saia, do decote ou rotul-la de qualquer forma machista e preconceituosa! E ainda se achar no direito de toc-la. Exigimos respeito! 


EMBATE
Uma polmica, duas opinies.
SOBRE A REPORTAGEM COMO SILENCIAMOS O ESTUPRO (JUL/15):
PASSEI MUITAS HORAS LENDO, relendo, me chocando e debatendo sobre o estupro. Fazia tempo que eu no lia uma matria to bem construda. Como mulher, me senti imensamente defendida. - Nathlia Romeiro 
CONCORDO QUE A FRASE "existe mulher pra casar e mulher pra pegar" seja machista, mas correlacion-la  cultura do estupro me soa exagerado. Todos ns - homens e mulheres - temos padres seletivos. - Bruno Teixeira 

3 LEITORAS FEMINISTAS
Sobre o post Por que achamos que ser magro  bonito? abr.ai/1M8rZWR 
1- O patriarcado, se vendo com dificuldade para controlar as mulheres, acabou por agarrar-nos pela aparncia, nos tratando como meros objetos de decorao. - Karine 
2- Vocs esto de parabns este ms! Um assunto como o estupro foi tratado com a devida seriedade e o culto ao corpo magro, com a devida clareza histrica! Usarei em minhas aulas! - Gabriela Fonseca 
3- Qualquer mulher que desobedea um padro  tachada de feia, estranha ou desleixada. Afinal, o corpo da mulher est a para ser observado. - Jeane Almeida 


H CINCIA NA PSICANLISE
Respeito e admiro Richard Dawkins. Acho que ele ficaria surpreso em saber que Freud, no artigo Futuro de uma iluso, desmistifica a religio. E que Lacan, com a sua teoria dos significantes, tem muita coisa em comum com os memes. - Jos Williams, sobre a entrevista Ele Est no Meio de Ns (jul/15). abr.ai/1/S5UGJ 

SUPERDESCOBERTA DO MS
"Cada vez que se comprova a existncia de uma partcula, percebemos o quanto o tomo  parecido com o Universo. Ser que a matria realmente existe?" - Carlos Augusto Valandro Balbino, no post Cientistas do LHC descobrem nova partcula. abr.ai/1DjOEZ5

Estava no shopping com duas misses: comprar um celular e a SUPER. Comprei primeiro a revista e vi o teste dos celulares. A escolha de vocs foi a minha. Obrigado! - Kayk Sh de Souza

VEGETARIATIVISMO
"Precisa ser radical, sim! Diminuir a ingesto de carne pode at aliviar o meio ambiente, mas os animais continuaro sendo explorados para satisfazer o paladar das pessoas." - Carla Mucciolo, sobre o post Vegetarianismo pode ajudar a salvar o mundo. Abr.ai/1e3z5hB

PLUTO EM PLUTO
Legal  que o Walt Disney mandou desenhar o Pluto em Pluto 80 anos atrs. - Jefferson Pestana, no post Sonda da Nasa chega BEM perto de Pluto. abr.ai/1/7htiN 

CHECKLIST
Este ms, no mundo SUPES

LIVRO  Cincia Maluca - Tem pesquisa para tudo no mundo. E a seo virou Livro! R$34,90
LIVRO - Deus: como ele nasceu - Conhea a origem das histrias sobre o todo-poderoso. R$29,90
DOSSI  Crimes - Os 71 casos mais impressionantes de todos os tempos. R$14
VDEO - Conta mais - O prximo vdeo da srie Conto mais  sobre diversidade sexual. Se liga no nosso canal!


FOI MAL
 O nome do personagem da srie Game of Thrones  Rhaegar Targaryen, no Raegan.
(Mundo Super, jul/15)


FALE COM A GENTE! 
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7# REALIDADE ALTERNATIVA agosto 2015

9.104 CARACTERES DE LITERATURA

A VIZINHA DE BAIXO
Um conto de Vanessa Barbara 

     A PRINCPIO, ERA apenas levemente incmodo e um tanto engraado. Quer dizer, no era como se tivssemos um vizinho com uma sustica na piscina, nem como se morssemos no andar de baixo de um estdio de sapateado. No tnhamos nenhum baterista nas redondezas, nem um ponto de trfico, nem um dono de papagaio. Nada de gente andando com salto alto de madrugada ou jogando Call Of Duty no volume 44. 
     Outro dia li sobre um vizinho que perseguia seus desafetos com uma serra eltrica, passava o dia xingando em voz alta e chegou a golpear um outro vizinho - paraplgico - com um peixe. Ele foi preso 34 vezes. Ns no tnhamos nada disso. ramos jovens, recm-casados e felizes proprietrios do apartamento 103, que compramos com a ajuda dos nossos pais e de uma poupana conjunta, e para onde nos mudamos assim que a pintura ficou pronta. Era um imvel de "72 metros quadrados de rea til, dois dormitrios espaosos com armrios embutidos, banheiro social com box de acrlico, sala ampla, cozinha, rea de servio, uma vaga, nada para fazer, tima localizao".  bem provvel que tenhamos nos decidido a comprar esse apartamento em especfico por causa da descrio "nada para fazer", o que era, alis, uma das nossas atividades prediletas. Ns tambm no sapatevamos, no tnhamos animais de estimao, no dvamos festas barulhentas, no tnhamos filhos;  gostvamos, enfim, de passar os fins de semana montando quebra-cabeas e tomando ch. Conversvamos em voz baixa e no tnhamos o costume de convidar amigos para jantar. 
     Por isso achamos estranho quando a vizinha do 93, uma professora aposentada, comeou a reclamar do nosso barulho. Na primeira vez, foi numa noite chuvosa de domingo - eu j dormia no quarto enquanto, na sala, Alan estava lendo uma coletnea de contos de horror. A vizinha interfonou para se queixar do rangido da cama que no a deixava dormir, um barulho irritante que j durava quase meia hora, e ele respondeu que a reclamao no fazia sentido, pois estvamos no mais absoluto silncio e, at onde ele sabia, eu no era sonmbula. Ela desligou, incrdula. 
     Levantei para saber o que havia ocorrido, e acabei perdendo o sono. Naquela poca ainda ramos felizes. 
     Na segunda vez, a vizinha interfonou para pedir que parssemos com "essa loucura de ficar batendo prego na parede". Estvamos jantando na cozinha, quase sem conversar, e Alan mais uma vez informou a vizinha de que no havia um nico martelo no apartamento. Ela resmungou um pouco, soltou um suspiro sentido e desligou. 
     Como eu disse, era apenas levemente incmodo e um tanto engraado. No era como ter um vizinho assassino que esconde o corpo da mulher no jardim - ao estilo de Lars Thorwald, de Janela Indiscreta - ou um casal de satnicos cujo nico objetivo seria nos fazer parir o Anticristo em troca de xito profissional - como Minnie e Roman Castevet em O Beb de Rosemary. Tratava-se apenas de uma vizinha excntrica com alucinaes auditivas, que ouvia camas rangendo e pregos sendo vigorosamente afixados  parede. Naquelas primeiras semanas, achamos graa nas reclamaes e ficamos apostando sobre o que viria em seguida, quase que torcendo para que o interfone tocasse e fosse a vizinha de baixo com algum aparte ilusrio. A reclamao do prego inclusive nos fez pensar em nossas paredes lisas, tediosas, e decidimos que j era hora de pregar alguns quadros com fotos nossas. (Compramos um martelo.) 
     A reclamao seguinte envolveu um aspirador de p excessivamente barulhento, numa manh de sbado em que estvamos lendo o jornal e cortando as unhas do p (Alan e eu, respectivamente), e, mais tarde, no mesmo dia, mveis imaginrios sendo arrastados com escndalo. Essa queixa foi registrada por um Alan sonolento que teve de se levantar para atender o interfone - eu no estava em casa e ele j se deitara fazia um tempo. 
     "Como assim, 'qual barulho'?", ela repetia, quase gritando. "Estou ouvindo vocs arrastando o sof para o outro lado da sala, isso no  hora de arrastar o sof", exclamou, enquanto Alan tentava convenc-la de que ningum estava fazendo nada quela hora da noite, que o prdio estava em silncio, que eu tinha ido dormir fora, que ela estava ouvindo coisas. No dia seguinte, quando foi me contar o que havia ocorrido, ele observou que at seria uma boa ideia empurrar o sof para o lado direito da sala, assim poderamos encaixar no espao vago um pedestal de mrmore com anjinhos esculpidos que a me dele nos dera de presente de casamento e ainda estava encaixotado por puro lobby da oposio (eu). Assim  fizemos. O rudo dos mveis sendo arrastados ecoou pelo prdio, mas a vizinha no interfonou para reclamar, talvez porque j o tivesse feito. 
     A histria toda ficou ainda mais estranha quando, dias depois, ela interfonou pedindo que desligssemos o ar-condicionado - e ns percebemos que realmente seria interessante se tivssemos um ar-condicionado, pois o clima ali andava muito sufocante. Encomendamos o aparelho logo em seguida, que foi instalado na janela bem acima do apartamento dela. Ficamos depois imaginando que ela podia ser uma vizinha com poderes paranormais que se antecipava aos nossos gostos e necessidades, e ficamos na expectativa das prximas chamadas. 
     Certa vez, ela serviu de juza (involuntria) para uma de nossas brigas mais acirradas: na mudana, eu desistira de trazer um enorme aqurio de peixes, que ficou na casa dos meus pais, pois Alan dizia que no havia espao no apartamento. Mas, conforme o tempo passava, comecei a ter saudade dos meus acars e a insistir para que trouxssemos o aqurio, instalando-o na rea de servio, onde no incomodaria tanto assim - era s botar a secadora num suporte alto e montar uma bancada junto  janela. Um dia, a vizinha interfonou perguntando se tnhamos um aqurio em casa, pois ela ouvia todas as noites o barulho do filtro de gua em funcionamento, o que era realmente incmodo para uma senhora de idade com problemas de insnia. Fui eu que atendi o interfone naquele dia, e foi com grande alegria que ouvi a reclamao. Nem me dignei a responder, bati o fone no gancho e anunciei, exultante: "Vamos trazer o aqurio!". Alan assentiu, como se fosse um desgnio do destino. (O aqurio no mitigou a minha melancolia.) 
     Ela tambm pediu que abaixssemos o som de algo que parecia "Bamboleo", dos Gipsy Kings, em looping, que  realmente uma msica contagiante e que decidimos escutar com mais frequncia para ver se o clima l em casa ficava menos pesado, e reclamou dos latidos do nosso cachorro inexistente - que demorou poucos dias para de fato existir, e materializou-se na forma de um filhote de labrador adotado em uma feirinha perto de casa. Gipsy Kings e o cachorro foram breves alegrias matrimoniais que no demoraram a se extinguir, como tudo l em casa, e os dias foram ficando cada vez mais tristes, e os toques do interfone, mais enervantes. 
     Ainda assim, no era como se tivssemos problemas de verdade com os vizinhos - nada como a histria de um certo Michael Carroll, que construiu uma pista de corrida para carros no prprio quintal e passava as madrugadas promovendo rachas de automveis, com direito a batidas e incndios ocasionais. Ou como Paula Bolli, que despejou no jardim 30 metros cbicos de esterco fresco de cavalo para adubar as plantas, atraindo fedor e ratos para as propriedades vizinhas. (O esterco nem estava sendo utilizado como adubo, pois a quantidade era tanta que Bolli no conseguia mais enxergar o solo. Em todo caso, ningum sabia se aquilo poderia ser considerado ilegal sob qualquer ponto de vista.) 
     Em suma, o nosso caso no era extremo, apenas envolvia uma vizinha idosa com problemas inslitos de audio. E um jovem casal em crise de relacionamento. 
     Dia aps dia, semana aps semana, ela reclamava de tudo, menos do choro de um beb - e foi por esse motivo, acima de tudo, que a vizinha logo comeou a pedir que  parssemos de brigar. Repetidas vezes. Ainda assim, passei a correr para atender os toques do interfone na expectativa de que logo viesse uma boa notcia, mas nada: s passos nervosos, portas batendo e brigas que se arrastavam pela madrugada, todos minuciosamente previstos pela vizinha de baixo com algumas horas de antecedncia. 
     Foi quando entendemos uma coisa: no era que ela estivesse se antecipando s nossas necessidades, era como se no tivssemos chance. Ela previa o futuro - ou melhor: ouvia o futuro. Depois que nos demos conta disso, ainda tentamos resistir, mas tudo o que ela dizia se tornava real; tentativas de reconciliao terminavam em crises de choro, jantares romnticos viravam brigas com pratos sendo arremessados, conversas em voz baixa eram concludas aos  gritos, ento paramos de tentar. 
     No era como se tivssemos um vizinho que ria alto demais, que acordava cedo para bater vitamina no liquidificador, ou que nunca segurava o elevador quando estvamos cheios de sacolas. 
     Ento, certo dia, ela interfonou apavorada perguntando o que foi aquele barulho horrvel, se algum havia se machucado, se queramos que ela chamasse a polcia, e eu decidi que, se algum ali fosse sair vivo, que fosse eu. 

Vanessa Barbara  jornalista e escritora, colunista dos jornais O Estado de So Paulo e The International New York Times. Nos ltimos anos, publicou o Noites de Alface (Alfaguara) e O Louco de Palestra (Companhia das Letras). Ainda neste semestre ir publicar o romance Operao Impensvel (Intrnseca). 
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8# LTIMA PGINA

DESCULPA QUALQUER COISA E AT LOGO

GRANDES EXTINES
Cinco vezes a vida na Terra quase acabou. E estamos entrando em mais uma extino: as espcies esto morrendo em ritmo cem vezes mais rpido do que o normal. S que a culpa dessa vez  nossa. 
Infogrfico Karin Hueck e Flvio Pessoa

H 440 MILHES DE ANOS
Matou 65% das espcies
Causa da extino: Era do Gelo

H 370 MILHES
Matou 70% das espcies
Causa da extino: Mudana climtica

H 250 MILHES
Matou 90% das espcies
Causa da extino: Queda do Nvel de Oxignio e Atividade Vulcnica

H 200 MILHES
Matou 50% das espcies
Causa da extino: Mudana Climtica e Atividade Vulcnica

H 65 MILHES
Matou 75% das espcies
Causa da extino: Meteoros

2015
Matar?? 100% da vida terrestre
Causa da extino: Ao Humana

